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O Ladrão de Raios - Ler
quinta-feira, 17 de abril de 2014
Capítulo 22
A profecia se cumpre
Fomos os primeiros heróis a retornar vivos à Colina Meio-Sangue desde Luke, portanto é claro que todos nos trataram como se tivéssemos ganho algum prêmio de reality show na tevê. De acordo com a tradição do acampamento, usamos coroas de louros em um grande banquete preparado em nossa honra, depois lideramos um cortejo até a fogueira, onde queimamos as mortalhas que tinham sido feitas para nós na nossa ausência. A mortalha de Annabeth era lindíssima – seda cinzenta com corujas bordadas – e eu disse que era uma pena não poder enterrá-la com ela. Ela me deu um soco e me mandou calar a boca. Por ser filho de Poseidon, eu não tinha nenhum companheiro de chalé, e assim o chalé de Ares se ofereceu para fazer a minha mortalha. Eles pegaram um lençol velho e pintaram carinhas sorridentes nas bordas, com XX no lugar dos olhos, e a palavra PERDEDOR em tamanho realmente grande no meio. Foi divertido queimá-la. Enquanto o chalé de Apolo liderava a cantoria e passava guloseimas, fui rodeado pelos meus companheiros do chalé de Hermes, pelos amigos de Annabeth de Atena e pelos colegas sátiros de Grover, que estavam admirando a licença de buscador nova em folha que ele recebera do Conselho dos Anciãos de Casco Fendido.
O conselho chamara o desempenho de Grover na missão de “Bravo a ponto de dar indigestão.”
Os únicos que não estavam com um espírito festivo eram Clarisse e seus companheiros de chalé, cujos olhares venenosos me diziam que jamais me perdoariam por envergonhar o pai deles. Por mim, tudo bem. Até mesmo o discurso de boas-vindas de Dioniso foi insuficiente para abafar o meu bom humor.
– Sim, sim, o molequinho não se deixou matar e agora vai ficar ainda mais presunçoso. Bem, um viva para isso. Entre outros comunicados, não haverá corridas de canoas neste sábado...
Mudei-me de volta para o chalé 3, mas ele não parecia mais tão solitário. Tinha os meus amigos para treinar durante o dia. À noite, ficava acordado e ouvia o mar, sabendo que meu pai estava lá fora. Talvez ele ainda não se sentisse muito seguro a meu respeito, talvez ainda não quisesse que eu tivesse nascido, mas estava observando. E, até agora, estava orgulhoso do que eu havia feito. Quanto à minha mãe, ela teve chance de uma vida nova. A carta dela chegou uma semana depois que voltei ao acampamento. Ela me contou que Gabe partira misteriosamente – desaparecera da face do planeta, de fato. Ela deu queixa do desaparecimento dele à polícia, mas tinha uma sensação engraçada de que jamais o encontrariam. Mudando completamente de assunto, ela tinha vendido a sua primeira escultura de concreto em tamanho natural, intitulada O jogador de pôquer, para um colecionador, através de uma galeria de arte do Soho. Recebera tanto dinheiro por ela que dera entrada em um novo apartamento e fizera o pagamento do primeiro semestre do seu curso na Universidade de Nova York. A galeria do Soho estava clamando por mais trabalhos dela, que eles chamaram de "um grande passo do neo-realismo do superfeio". Mas não se preocupe, escreveu a minha mãe. Para mim, chega de escultura. Livrei-me daquela caixa de ferramentas que você deixou para mim. Já é hora de eu voltar a escrever. No fim, ela escreveu um P.S.:Percy, encontrei uma boa escola particular aqui na cidade. Fiz um depósito para reservar um lugar para você, caso queira se matricular na sétima série. Você poderá morar em casa. Mas, se quiser ficar o ano inteiro na Colina Meio-Sangue, vou entender.Dobrei a carta cuidadosamente e a pus na minha mesa de cabeceira. Todas as noites antes de dormir eu a leio de novo, e tento decidir como responder a ela.
No Quatro de Julho, o acampamento inteiro se reuniu na praia para um espetáculo pirotécnico por conta do chalé 9. Como filhos de Hefesto, não iriam se contentar com explosões comuns em vermelho, branco e azul. Eles ancoraram uma barcaça longe da costa e a carregaram com foguetes do tamanho de mísseis Patriot. De acordo com Annabeth, que já tinha visto o espetáculo antes, as explosões seriam tão bem sequenciadas que pareceriam quadros de animação no céu. O final deveria ser um par de guerreiros espartanos de trinta metros de altura que iriam crepitar para a vida acima do oceano, travar uma batalha e então explodir em um milhão de cores. Enquanto Annabeth e eu estendíamos toalhas de piquenique, Grover apareceu para se despedir de nós. Usava os jeans, a camiseta e os tênis de sempre, mas nas últimas semanas começara a parecer mais velho, quase com idade de secundarista. Seu cavanhaque ficara mais espesso. Ganhara peso. Seus chifres haviam crescido pelo menos três centímetros, de modo que agora tinha de usar o seu boné rastafári o tempo todo para passar por ser humano.
– Estou de partida – disse ele. – Vim só dizer... bem, vocês sabem.
Tentei me sentir feliz por ele. Afinal, não era todo dia que um sátiro conseguia permissão para procurar o grande deus Pã. Mas era difícil dizer adeus. Eu só conhecia Grover fazia um ano, e, no entanto ele era o meu amigo mais antigo. Annabeth deu-lhe um abraço. Ela lhe disse para usar sempre os seus pés falsos. Perguntei-lhe onde iria procurar primeiro.
– Tipo segredo – disse ele, parecendo embaraçado. – Gostaria que vocês pudessem vir comigo, mas seres humanos e Pã...
– A gente entende – disse Annabeth. – Você tem latas suficientes para a viagem?
– Sim.
– E se lembrou das suas flautas de bambu?
– Puxa, Annabeth – resmungou ele. – Você parece uma velha mamãe-cabra. Mas ele não pareceu aborrecido de verdade. Ele agarrou sua bengala e jogou uma mochila por cima dos ombros. Parecia um caroneiro desses que se veem nas estradas – nada parecido com o menino baixinho que eu costumava defender dos valentões na Academia Yancy.
– Bem – disse ele – desejem-me boa sorte.
Ele deu outro abraço em Annabeth. Bateu no meu ombro, e então retornou através das dunas. Fogos de artifício explodiram acima de nós: Hércules matando o leão da Neméia, Ártemis perseguindo o javali, George Washington (que, aliás, era um filho de Atena) cruzando o rio Delaware.
– Ei, Grover – chamei. Ele se voltou à margem do bosque. – Aonde quer que esteja indo, espero que façam boas enchiladas.
Grover sorriu, e se foi; as árvores se fechando em volta dele.
– Nós o veremos de novo – disse Annabeth.
Tentei acreditar nisso. O fato de que nenhum buscador jamais voltara em dois mil anos... bem, decidi não pensar nisso. Grover ia ser o primeiro. Tinha de ser.
Julho se foi. Eu passava os meus dias bolando novas estratégias para a captura da bandeira e fazendo alianças com os outros chalés para manter o estandarte fora das mãos de Ares. Cheguei até o topo da parede de escalada pela primeira vez sem ser tostado pela lava. De tempos em tempos, eu passava pela Casa Grande, dava uma olhada nas janelas do sótão e pensava no Oráculo. Tentei convencer a mim mesmo que a sua profecia se completara.
Você deve ir para o oeste, e enfrentar o deus que se tornou desleal. Estive lá, fiz isso – mesmo que no fim o deus traidor fosse Ares, e não Hades. Você deve encontrar o que foi roubado e devolver em segurança. Confere. Um raio-mestre entregue. Um elmo das trevas de volta na cabeça untuosa de Hades. Você será traído por aquele que o chama de amigo. Essa linha ainda me incomodava. Ares fingira ser meu amigo e depois me traíra. Devia ser isso que o Oráculo queria dizer... E no fim não conseguirá salvar aquilo que mais importa. Eu não conseguira salvar minha mãe, mas só porque eu a deixara se salvar sozinha, e sabia que era a coisa certa a fazer. Então por que ainda estava incomodado?
A última noite de verão chegou depressa demais. Os campistas fizeram uma última refeição juntos. Queimamos parte do nosso jantar para os deuses. Junto à fogueira, os conselheiros mais velhos entregaram as contas de fim de verão. Ganhei o meu próprio colar de couro, e quando vi a conta pelo meu primeiro verão, fiquei contente porque a luz da fogueira encobriu o vermelho na minha cara. O desenho era preto como piche, com um tridente verde-mar cintilando no centro.
– A escolha foi unânime – anunciou Luke. – Esta conta comemora o primeiro Filho do Deus do Mar neste acampamento, e a missão que ele assumiu para a parte mais escura do Mundo Inferior para impedir uma guerra!
O acampamento inteiro se pôs de pé e aplaudiu. Mesmo o chalé de Ares se sentiu na obrigação de levantar. O chalé de Atenas empurrou Annabeth para a frente para que ela pudesse compartilhar os aplausos. Acho que nunca na vida me senti ao mesmo tempo tão feliz ou e tão triste como naquele momento. Finalmente encontrara uma família, gente que se preocupava comigo e achava que eu tinha feito alguma coisa de modo certo. E, pela manhã, a maior parte deles ficaria fora o resto do ano. Na manhã seguinte encontrei uma carta padronizada na minha mesa de cabeceira. Soube que devia ter sido preenchida por Dioníso, pois ele insistia teimosamente em errar o meu nome:
Caro Peter Johnson,
Se você pretende permanecer no Acampamento Meio-Sangue o ano inteiro, precisa informar a Casa Grande até o meio-dia de hoje. Caso não anuncie suas intenções, presumiremos que você vagou o seu chalé ou morreu de uma morte horrível. Harpias da limpeza começarão seu trabalho ao pôr do sol. Elas estarão autorizadas a comer qualquer campista não registrado. Todos os artigos pessoais deixados para trás serão incinerados no poço de lava. Tenha um bom dia!
Senhor D (Dioniso) Diretor do Acampamento, Conselheiro Olimpiano n° 12.
Essa é mais uma questão do transtorno do déficit de atenção. Os prazos simplesmente não existem para mim até que não tenha mais jeito. O verão acabara, e eu ainda não havia respondido para a minha mãe, nem para o acampamento, se iria ficar. Agora tinha apenas algumas horas para decidir. A decisão tinha tudo para ser fácil. Quer dizer, nove meses treinando para herói, ou nove meses sentado numa sala de aula – fala sério! Mas havia a minha mãe para considerar. Pela primeira vez eu tinha oportunidade de morar com ela por um ano inteiro, sem Gabe. Tinha chance de estar em casa e perambular pela cidade nas horas livres. Lembrei-me do que Annabeth dissera tanto tempo atrás sobre a nossa missão: O mundo real é onde os monstros estão. É onde a gente aprende se serve para alguma coisa ou não.
Pensei no destino de Thalia, filha de Zeus. Fiquei pensando quantos monstros me atacariam se eu deixasse a Colina Meio-Sangue. Se eu ficasse em um só lugar durante todo um ano escolar, sem Quíron e meus amigos em volta para me ajudar, será que minha mãe e eu sobreviveríamos até o próximo verão? E isso presumindo que os testes de ortografia e os ensaios de cinco parágrafos não me matassem. Decidi ir até a arena e praticar um pouco de esgrima. Talvez isso me clareasse a cabeça.
A área do acampamento estava deserta na maior parte, tremeluzindo no calor de agosto. Todos os campistas estavam nos seus chalés fazendo as malas, ou correndo de um lado para outro com vassouras e esfregões, preparando-se para a inspeção final. Argos estava ajudando algumas filhas de Afrodite a carregar suas malas e estojos de maquiagem Gucci para o outro lado da colina, onde o ônibus do acampamento estaria esperando para levá-las ao aeroporto.
Não pense em partir ainda, disse para mim mesmo. Apenas treine. Cheguei à arena dos espadachins e descobri que Luke tivera a mesma ideia. Sua sacola estava jogada na beirada da arena. Ele estava treinando sozinho, investindo violentamente contra bonecos com uma espada que eu nunca tinha visto antes. Devia ser uma espada toda de aço, pois decepava de um golpe as cabeças dos bonecos e atravessava com estocadas as suas tripas recheadas de palha. Sua camisa laranja de conselheiro pingava de suor. A expressão dele era tão intensa que dava para pensar que sua vida estava realmente em perigo.
Eu assisti, fascinado, enquanto ele destripava toda a fileira de bonecos, cortando fora os membros e basicamente os reduzindo a uma pilha de palha e armaduras. Eram apenas bonecos, mas ainda assim eu não podia deixar de ficar assombrado com a habilidade de Luke. O cara era um guerreiro incrível. Aquilo me fez pensar, novamente, como ele podia ter falhado em sua missão. Por fim ele me viu e interrompeu-se no meio de um golpe.
– Percy.
– Ahn, desculpe – disse eu, embaraçado. – Eu só...
– Tudo bem – disse ele, abaixando a espada. – Estava só dando uma treinada de último minuto.
– Aqueles bonecos nunca mais vão incomodar ninguém.
Luke encolheu os ombros.
– Nós fazemos novos todo verão.
Agora que a espada não estava mais rodopiando de um lado para outro, pude ver algo de estranho nela. A lâmina era feita com dois tipos de metal diferentes – um fio de bronze, o outro de aço.
Luke reparou que eu estava olhando.
– Ah, isso? Brinquedo novo. Esta é a Mordecostas.
– Mordecostas?
Luke virou a lâmina na luz, e a fez brilhar de um jeito maligno.
– Um lado é de bronze celestial. O outro é de aço temperado. Funciona tanto em mortais como em imortais.
Pensei no que Quíron tinha me dito quando eu comecei a minha missão – que um herói jamais deve ferir mortais a não ser que seja absolutamente necessário.
– Eu não sabia que eles podiam fazer armas como esta.
– Eles provavelmente não – concordou Luke. – Esta aqui é única. – Ele me deu um sorrisinho mínimo e então enfiou a espada na bainha. – Escute. Eu estava indo procurar por você. O que me diz de irmos até a floresta uma última vez, para procurar algo para enfrentar?
Não sei por que hesitei. Devia ter me sentido aliviado por Luke estar sendo tão amigável. Desde que eu voltara da missão ele vinha agindo de modo um pouco distante. Estava com medo de que ele estivesse ressentido com toda a atenção que eu recebera.
– Você acha que é uma boa ideia? – perguntei. – Quero dizer...
– Ora, vamos. – Ele remexeu na sua sacola e tirou de lá uma embalagem de seis Cocas. – Bebidas por minha conta.
Olhei para as Cocas, me perguntando onde diabo as teria conseguido. Não havia refrigerantes mortais comuns na loja do acampamento. Não havia como consegui-los a não ser que a gente falasse com um sátiro, talvez. Naturalmente, as taças mágicas do jantar se encheriam com qualquer coisa que a gente quisesse, mas não tinham exatamente o mesmo gosto de uma Coca de verdade, saída da lata. Açúcar e cafeína. Minha força de vontade desmoronou.
– Claro – decidi. – Por que não?
Fomos andando até a floresta e perambulamos sem rumo à procura de algum tipo de monstro para enfrentar, mas estava quente demais. Todos os monstros com um mínimo de bom senso deviam estar fazendo a sesta nas suas cavernas agradáveis e frescas. Encontramos um lugar à sombra junto ao regato onde eu quebrara a lança de Clarisse durante meu primeiro jogo de captura da bandeira. Sentamo-nos em uma grande pedra, bebemos as nossas Cocas e ficamos olhando para a luz do sol na floresta. Depois de algum tempo, Luke disse:
– Sente falta de estar em uma missão?
– Com monstros me atacando a cada passo? Fala sério!
Luke ergueu uma sobrancelha.
– Sim, eu sinto falta – admiti.
– E você?
Uma sombra passou pelo seu rosto. Eu estava acostumado a ouvir as meninas dizerem como Luke era bonito, mas naquele momento ele pareceu cansado, zangado e nem um pouco bonito. Seu cabelo loiro estava cinzento à luz do sol. A cicatriz no rosto parecia mais funda que de costume. Parecia estar vendo um velho.
– Vivo na Colina Meio-Sangue o ano inteiro desde que tinha catorze anos – contou-me. – Desde que Thalia... bem, você sabe. Treinei, treinei e treinei. Nunca cheguei a ser um adolescente normal, lá fora no mundo real. Então eles me jogaram numa missão, e quando voltei, foi tipo, "Certo, o passeio acabou. Passe bem".
Ele amarrotou a sua Coca e a atirou no regato, o que realmente me chocou. Uma das primeiras coisas que a gente aprende no Acampamento Meio-Sangue é: não jogue lixo no chão. Você será repreendido pelas ninfas e náiades. Elas ajustarão as contas. Você cai na cama uma noite e encontra os lençóis cheios de centopeias e lama.
– Para o diabo com as coroas de louros – disse Luke. – Não vou terminar como aqueles troféus empoeirados no sótão da Casa Grande.
– Você está parecendo alguém que vai embora.
Luke me deu um sorriso torto.
– Oh, eu estou indo embora, sem dúvida, Percy. Trouxe você aqui para dizer adeus.
Ele estalou os dedos. Um pequeno fogo queimou um buraco no chão aos meus pés. De lá, saiu se arrastando alguma coisa preta e brilhante, mais ou menos do tamanho da minha mão. Um escorpião. Comecei a procurar a minha caneta. – Eu não faria isso – advertiu Luke. – Escorpiões das profundezas podem pular até cinco metros. Seu ferrão pode perfurar as suas roupas. Você estaria morto em sessenta segundos.
– Luke, o que... – Então caiu a ficha. Você será traído por aquele que o chama de amigo.– Você – disse eu.
Ele se levantou calmamente e sacudiu o pó dos seus jeans. O escorpião não lhe deu atenção. Seus olhos pequenos e brilhantes continuavam fixos em mim, apertando as pinças enquanto se arrastava para cima do meu sapato.
– Eu vi muita coisa lá fora no mundo, Percy – disse Luke. – Você não sentiu... a escuridão se acumulando, os monstros ficando mais fortes? Não percebeu como tudo é inútil? Todos os feitos heroicos... Nós não passamos de peões dos deuses. Eles já deviam ter sido derrubados há milhares de anos, mas persistem, graças a nós, meios-sangues. Eu não podia acreditar no que estava acontecendo.
– Luke... você está falando dos nossos pais – disse eu.
Ele riu.
– E por isso eu preciso amá-los? A sua preciosa "civilização ocidental" é uma doença, Percy. Ela está matando o mundo. O único meio de detê-la é queimá-la completamente e começar tudo de novo com algo mais honesto.
– Você é tão louco quanto Ares.
Seus olhos flamejaram.
– Ares é um tolo. Ele nunca percebeu quem é o verdadeiro mestre a quem está servindo. Se eu tivesse tempo, Percy, poderia explicar. Mas infelizmente você não vai viver tanto.
O escorpião se arrastou para cima da perna das minhas calças. Tinha de haver um meio de sair dessa. Eu precisava de tempo para pensar.
– Cronos – disse eu. – É a ele que você serve.
O ar ficou mais frio.
– Você devia ter cuidado com nomes – avisou Luke.
– Cronos fez você roubar o raio-mestre e o elmo. Ele falou com você nos seus sonhos.
O olho de Luke se contraiu.
– Ele falou com você também, Percy. Devia ter ouvido.
– Ele está fazendo uma lavagem cerebral em você, Luke.
– Você está errado. Ele me mostrou que os meus talentos estão sendo desperdiçados. Você sabe qual foi a minha missão dois anos atrás, Percy? Meu pai, Hermes, queria que eu roubasse um pomo de ouro do jardim das Hespérides e o levasse ao Olimpo. Depois de todo o treinamento que fiz, aquilo foi o melhor em que ele pôde pensar.
– Essa não é uma missão fácil – disse eu. – Hércules fez isso.
– Exatamente – disse Luke. – Onde está a glória em repetir o que outros já fizeram? Tudo o que os deuses sabem fazer é repetir o passado. Meu coração não estava naquilo. O dragão do jardim me deu isto – ele apontou para a cicatriz – e quando voltei, tudo o que ganhei foi piedade. Eu queria destruir o Olimpo pedra por pedra naquele momento, mas esperei pelo momento certo. Comecei a sonhar com Cronos. Ele me convenceu a roubar alguma coisa que valesse a pena, algo que nenhum herói jamais tivera a coragem de pegar. Quando fomos naquela excursão do solstício de inverno, enquanto os outros campistas dormiam, entrei furtivamente na sala do trono e peguei o raio-mestre de Zeus bem em cima da cadeira dele. O elmo das trevas de Hades também. Você não tem ideia como foi fácil. Os olimpianos são tão arrogantes; eles nunca nem sonharam que alguém se atrevesse a roubá-los. A segurança deles é horrível. Eu já estava a meio caminho através de New Jersey antes de ouvir as tempestades, e soube que eles tinham descoberto o meu roubo.
O escorpião agora estava parado no meu joelho, me olhando com seus olhos brilhantes. Tentei manter a voz no mesmo nível.
– Então por que não levou os objetos para Cronos? – O sorriso de Luke vacilou.
– Eu... eu fiquei confiante demais. Zeus mandou seus filhos e filhas para encontrar o raio roubado: Ártemis, Apolo, meu pai, Hermes. Mas foi Ares quem me pegou. Eu podia tê-lo vencido, mas não fui bastante cuidadoso. Ele me desarmou, tomou de mim os objetos de poder, ameaçou devolvê-los ao Olimpo e me queimar vivo. Então a voz de Cronos veio a mim e me falou o que dizer. Pus na cabeça de Ares a ideia de uma grande guerra entre os deuses. Disse que tudo o que ele teria de fazer seria esconder os objetos por algum tempo e ficar assistindo enquanto os outros lutavam. Um brilho perverso surgiu nos olhos de Ares. Eu sabia que ele estava fisgado. Ele me deixou ir, e eu voltei ao Olimpo antes que alguém notasse a minha ausência. – Luke sacou a sua nova espada. Ele correu o polegar pela parte achatada da lâmina, como se estivesse hipnotizado por sua beleza. – Depois, o Senhor dos Titãs... e-ele me castigou com pesadelos. Eu jurei não falhar outra vez. De volta ao Acampamento Meio-Sangue, em meus sonhos, me foi dito que um segundo herói chegaria, um que poderia ser enganado para levar o raio e o elmo o resto do caminho, de Ares até o Tártaro.
– Você convocou o cão infernal aquela noite na floresta.
– Tínhamos de fazer Quíron pensar que o acampamento não era seguro para você, e assim ele iria dar início à sua missão. Tínhamos de confirmar seus temores de que Hades estava atrás de você. E funcionou.
– Os tênis voadores estavam amaldiçoados – disse eu. – Eles deveriam me arrastar com a mochila para dentro do Tártaro.
– E teriam, se você os estivesse usando. Mas você os deu ao sátiro, o que não era parte do plano. Grover bagunça tudo o que ele toca. Confundiu até a maldição. – Luke baixou os olhos para o escorpião, que estava agora parado na minha coxa. – Você devia ter morrido no Tártaro, Percy. Mas não se preocupe. Vou deixá-lo com o meu pequeno amigo para corrigir as coisas.
– Thalia deu a vida dela para salvá-lo – disse eu rangendo os dentes. – E é assim que você retribui?
– Não fale de Thalia! – berrou ele. – Os deuses a deixaram morrer! Essa é uma das muitas coisas pelas quais eles pagarão.
– Você está sendo usado, Luke. Você e Ares, os dois. Não dê ouvidos a Cronos.
– Eu estou sendo usado? – A voz de Luke ficou estridente. – Olhe para você mesmo. O que o seu pai já fez por você? Cronos se erguerá. Você apenas retardou os seus planos. Ele irá lançar os olimpianos no Tártaro e mandará a humanidade de volta para as cavernas. Todos menos os mais fortes; aqueles que o servem.
– Chame de volta o seu bicho rastejante – disse eu. – Se você é tão forte, lute comigo você mesmo.
Luke sorriu.
– Boa tentativa, Percy. Mas eu não sou Ares. Você não pode me engabelar. Meu senhor está esperando, e ele tem muitas missões para mim.
– Luke...
– Adeus, Percy. Uma nova Idade do Ouro está chegando. Você não será parte dela. Ele traçou um arco com a espada e desapareceu numa onda de escuridão. O escorpião deu o bote.
Eu o joguei de lado com a mão e destampei a espada. A coisa pulou em cima de mim e eu a cortei ao meio no ar. Estava a ponto de me congratular quando olhei para a minha mão. Na palma havia um enorme vergão vermelho, que destilava uma secreção amarela e fumegante. A coisa me pegara, afinal. Meus ouvidos latejavam. Minha visão ficou embaçada. A água, pensei. Ela já me curara antes. Cambaleei até o regato e mergulhei a mão, mas nada pareceu acontecer. O veneno era forte demais. Minha visão estava escurecendo. Eu mal conseguia ficar em pé. Sessenta segundos, Luke me dissera. Eu tinha de voltar ao acampamento. Se desmaiasse aqui, meu corpo seria o jantar de algum monstro. Ninguém jamais saberia o que aconteceu. Minhas pernas pareciam feitas de chumbo. Minha testa queimava. Fui cambaleando até o acampamento, e as ninfas despertaram de suas árvores.
– Socorro – grasnei. – Por favor...
Duas delas seguraram os meus braços e me puxaram para frente. Lembro-me de chegar até a clareira, de um conselheiro gritando por ajuda, de um centauro tocando uma trombeta de concha. Então tudo escureceu.
Acordei com um canudinho na boca. Estava bebendo alguma coisa que tinha gosto de biscoitos de flocos de chocolate líquidos. Néctar. Abri os olhos. Estava reclinado na cama no quarto de doentes da Casa Grande, a mão direita enfaixada como um pedaço de pau. Argos montava guarda no canto. Annabeth estava sentada ao meu lado, segurando o copo de néctar e enxugando a minha testa com uma toalha.
– Aqui estamos nós outra vez – disse eu.
– Seu idiota – disse Annabeth, e foi como eu percebi que ela estava radiante por me ver consciente. – Você estava verde e ficando cinzento quando o encontramos. Se não fosse o tratamento de Quíron...
– Vamos, vamos – disse a voz de Quíron. – A constituição de Percy merece parte do crédito.
Ele estava sentado perto do pé da minha cama em forma humana, e foi por isso que eu não o notara antes. Sua parte inferior estava magicamente compactada na cadeira de rodas, e a parte superior usava casaco e gravata. Ele sorriu, mas seu rosto parecia cansado e pálido, como quando passava a noite em claro corrigindo provas de latim.
– Como está se sentindo? – perguntou.
– Como se as minhas entranhas tivessem sido congeladas e depois assadas no micro-ondas.
– Apropriado, considerando que foi veneno de escorpião das profundezas. Agora você tem de me contar, se puder, exatamente o que aconteceu.
Entre goles de néctar, contei-lhes a história. O quarto ficou em silêncio por um longo tempo.
– Eu não posso acreditar que Luke... – A voz de Annabeth vacilou. Sua expressão ficou zangada e triste. – Sim. Sim, eu posso acreditar. Que os deuses o amaldiçoem... Ele nunca mais foi o mesmo depois da sua missão.
– Isso deve ser relatado ao Olimpo – murmurou Quíron. – Irei imediatamente.
– Luke está lá fora agora – disse eu. – Preciso ir atrás dele.
Quíron sacudiu a cabeça.
– Não, Percy. Os deuses...
– Nem mesmo falam sobre Cronos – disparei. – Zeus declarou o assunto encerrado!
– Percy, eu sei que é difícil. Mas você não deve correr atrás de vingança. Você não está preparado. Eu não gostei, mas parte de mim suspeitava que Quíron estava certo. Bastava uma olhada para a minha mão e dava para ver que não haveria lutas de espada tão cedo.
– Quíron... a sua profecia do Oráculo... era sobre Cronos, não era? Eu estava nela? E Annabeth?
Quíron olhou nervosamente para o teto.
– Percy, não cabe a mim...
– Você recebeu ordens de não falar comigo sobre isso, não foi?
Seus olhos eram solidários, mas tristes.
– Você será um grande herói, criança. Darei o melhor de mim para prepará-lo. Mas se estou certo quanto ao caminho à sua frente... – O trovão ribombou acima, chacoalhando as janelas. – Está certo! – gritou Quíron. – Perfeito! – Ele suspirou com frustração. – Os deuses têm suas razões, Percy. Saber demais sobre o próprio futuro nunca é uma boa coisa.
– Não podemos simplesmente ficar sentados sem fazer nada – disse eu.
– Nós não vamos ficar sentados – prometeu Quíron. – Mas você precisa ter cuidado. Cronos quer que você seja destruído. Ele quer a sua vida interrompida, os seus pensamentos obscurecidos por medo e raiva. Não dê a ele o que ele quer. Treine pacientemente. O seu momento chegará.
– Presumindo que eu esteja vivo até lá.
Quíron pousou a mão no meu tornozelo.
– Você terá de confiar em mim, Percy. Você viverá. Mas primeiro precisa decidir seu caminho para o próximo ano. Não posso dizer a você qual é a escolha certa... – Tive a impressão de que ele tinha uma opinião muito bem definida, e estava usando toda a sua força de vontade para não me aconselhar. – Mas você precisa decidir se vai ficar no Acampamento Meio-Sangue o ano inteiro, ou se vai voltar ao mundo mortal para a sétima série e ser um campista de verão. Pense nisso. Quando eu voltar do Olimpo, você terá de me contar a sua decisão.
Eu quis protestar. Quis lhe fazer mais perguntas. Mas sua expressão me disse que não haveria mais discussão; ele já dissera tudo o que podia.
– Estarei de volta assim que puder – prometeu Quíron. – Argos o protegerá.
Ele lançou um olhar para Annabeth.
– Ah, e minha querida... quando estiver pronta, eles estão aqui.
– Quem está aqui? – perguntei.
Ninguém respondeu. Quíron rodou para fora do quarto. Ouvi o som metálico abafado das rodas da sua cadeira descendo cautelosamente os degraus da frente, dois de cada vez. Annabeth estudou o gelo na minha bebida.
– O que está errado? – perguntei a ela.
– Nada. – Ela pôs o copo sobre a mesa. – Eu... apenas aceitei o seu conselho sobre algo. Você... ahn... precisa de alguma coisa?
– Sim. Ajude-me a levantar. Quero ir para fora.
– Percy, não é uma boa ideia.
Arrastei as pernas para fora da cama. Annabeth me agarrou antes que eu desabasse no chão. Uma onda de náusea me acometeu. Annabeth disse:
– Eu falei...
– Estou ótimo – insisti.
Eu não queria ficar deitado na cama como um inválido enquanto Luke estava lá fora planejando destruir o mundo ocidental. Consegui dar um passo para a frente. Depois outro, ainda me apoiando pesadamente em Annabeth. Argos nos seguiu para fora, mas manteve distância. Quando chegamos à varanda, meu rosto estava molhado de suor. Meu estômago se contorcia em nós. Mas eu conseguira ir até a cerca. Estava anoitecendo. O acampamento parecia completamente deserto. Os chalés estavam escuros e a quadra de vôlei, silenciosa. Nenhuma canoa cortava a superfície do lago. Além dos bosques e dos campos de morangos, o estreito de Long Island brilhava com os últimos raios do sol.
– O que você vai fazer? – perguntou-me Annabeth.
– Eu não sei.
Disse a ela que tinha a sensação de que Quíron queria que eu ficasse o ano inteiro, para ter mais tempo de treinamento individual, mas eu não tinha certeza de que era isso o que queria. Porém admiti que me sentia mal por deixá-la sozinha, com Clarisse por companhia... Annabeth apertou os lábios e então disse baixinho:
– Eu vou passar o ano em casa, Percy.
Eu olhei para ela.
– Você quer dizer, com o seu pai?
Ela apontou para o cume da Colina Meio-Sangue. Junto ao pinheiro de Thalia, bem no limite das fronteiras mágicas do acampamento, havia uma família em silhueta – duas crianças pequenas, uma mulher e um homem alto de cabelos loiros. Pareciam estar aguardando. O homem segurava uma mochila parecida com a que Annabeth pegara no Parque Aquático em Denver.
– Eu escrevi uma carta para ele quando voltamos – disse Annabeth. – Como você sugeriu. Eu disse a ele... que sentia muito. Que iria para casa passar o ano escolar se ele ainda me quisesse. Ele respondeu na mesma hora. Nós decidimos... que íamos tentar de novo.
– Foi preciso coragem para isso.
Ela apertou os lábios.
– Você não vai tentar nada de estúpido durante o ano escolar, vai? Pelo menos... não sem me mandar uma mensagem de íris?
Consegui sorrir.
– Não vou procurar encrenca. Normalmente eu não preciso.
– Quando eu voltar no próximo verão – disse ela – vamos caçar Luke. Vou pedir uma missão, mas se não tivermos aprovação, vamos sair escondidos e fazer isso do mesmo jeito. De acordo?
– Parece um plano digno de Atena.
Ela estendeu a mão. Eu a apertei.
– Cuide-se, Cabeça de Alga – disse Annabeth. – Mantenha os olhos abertos.
– Você também, Sabidinha. Fiquei olhando enquanto ela subia a colina para se juntar à família. Ela deu um abraço meio sem jeito no pai e olhou para o vale atrás dela uma última vez. Tocou o pinheiro de Thalia e então se deixou levar por cima do cume e para dentro do mundo mortal. Pela primeira vez no acampamento, me senti verdadeiramente só. Olhei para o estreito de Long Island e me lembrei do meu pai dizendo: O mar não gosta de ser contido. Tomei minha decisão. Fiquei pensando: se Poseidon estivesse vendo, ele aprovaria a minha escolha?
– Estarei de volta no próximo verão – prometi a ele. – Sobreviverei até lá. Afinal, eu sou seu filho.
Pedi a Argos para me levar até o chalé 3, para eu arrumar as minhas coisas antes de ir para casa.
O conselho chamara o desempenho de Grover na missão de “Bravo a ponto de dar indigestão.”
Os únicos que não estavam com um espírito festivo eram Clarisse e seus companheiros de chalé, cujos olhares venenosos me diziam que jamais me perdoariam por envergonhar o pai deles. Por mim, tudo bem. Até mesmo o discurso de boas-vindas de Dioniso foi insuficiente para abafar o meu bom humor.
– Sim, sim, o molequinho não se deixou matar e agora vai ficar ainda mais presunçoso. Bem, um viva para isso. Entre outros comunicados, não haverá corridas de canoas neste sábado...
Mudei-me de volta para o chalé 3, mas ele não parecia mais tão solitário. Tinha os meus amigos para treinar durante o dia. À noite, ficava acordado e ouvia o mar, sabendo que meu pai estava lá fora. Talvez ele ainda não se sentisse muito seguro a meu respeito, talvez ainda não quisesse que eu tivesse nascido, mas estava observando. E, até agora, estava orgulhoso do que eu havia feito. Quanto à minha mãe, ela teve chance de uma vida nova. A carta dela chegou uma semana depois que voltei ao acampamento. Ela me contou que Gabe partira misteriosamente – desaparecera da face do planeta, de fato. Ela deu queixa do desaparecimento dele à polícia, mas tinha uma sensação engraçada de que jamais o encontrariam. Mudando completamente de assunto, ela tinha vendido a sua primeira escultura de concreto em tamanho natural, intitulada O jogador de pôquer, para um colecionador, através de uma galeria de arte do Soho. Recebera tanto dinheiro por ela que dera entrada em um novo apartamento e fizera o pagamento do primeiro semestre do seu curso na Universidade de Nova York. A galeria do Soho estava clamando por mais trabalhos dela, que eles chamaram de "um grande passo do neo-realismo do superfeio". Mas não se preocupe, escreveu a minha mãe. Para mim, chega de escultura. Livrei-me daquela caixa de ferramentas que você deixou para mim. Já é hora de eu voltar a escrever. No fim, ela escreveu um P.S.:Percy, encontrei uma boa escola particular aqui na cidade. Fiz um depósito para reservar um lugar para você, caso queira se matricular na sétima série. Você poderá morar em casa. Mas, se quiser ficar o ano inteiro na Colina Meio-Sangue, vou entender.Dobrei a carta cuidadosamente e a pus na minha mesa de cabeceira. Todas as noites antes de dormir eu a leio de novo, e tento decidir como responder a ela.
No Quatro de Julho, o acampamento inteiro se reuniu na praia para um espetáculo pirotécnico por conta do chalé 9. Como filhos de Hefesto, não iriam se contentar com explosões comuns em vermelho, branco e azul. Eles ancoraram uma barcaça longe da costa e a carregaram com foguetes do tamanho de mísseis Patriot. De acordo com Annabeth, que já tinha visto o espetáculo antes, as explosões seriam tão bem sequenciadas que pareceriam quadros de animação no céu. O final deveria ser um par de guerreiros espartanos de trinta metros de altura que iriam crepitar para a vida acima do oceano, travar uma batalha e então explodir em um milhão de cores. Enquanto Annabeth e eu estendíamos toalhas de piquenique, Grover apareceu para se despedir de nós. Usava os jeans, a camiseta e os tênis de sempre, mas nas últimas semanas começara a parecer mais velho, quase com idade de secundarista. Seu cavanhaque ficara mais espesso. Ganhara peso. Seus chifres haviam crescido pelo menos três centímetros, de modo que agora tinha de usar o seu boné rastafári o tempo todo para passar por ser humano.
– Estou de partida – disse ele. – Vim só dizer... bem, vocês sabem.
Tentei me sentir feliz por ele. Afinal, não era todo dia que um sátiro conseguia permissão para procurar o grande deus Pã. Mas era difícil dizer adeus. Eu só conhecia Grover fazia um ano, e, no entanto ele era o meu amigo mais antigo. Annabeth deu-lhe um abraço. Ela lhe disse para usar sempre os seus pés falsos. Perguntei-lhe onde iria procurar primeiro.
– Tipo segredo – disse ele, parecendo embaraçado. – Gostaria que vocês pudessem vir comigo, mas seres humanos e Pã...
– A gente entende – disse Annabeth. – Você tem latas suficientes para a viagem?
– Sim.
– E se lembrou das suas flautas de bambu?
– Puxa, Annabeth – resmungou ele. – Você parece uma velha mamãe-cabra. Mas ele não pareceu aborrecido de verdade. Ele agarrou sua bengala e jogou uma mochila por cima dos ombros. Parecia um caroneiro desses que se veem nas estradas – nada parecido com o menino baixinho que eu costumava defender dos valentões na Academia Yancy.
– Bem – disse ele – desejem-me boa sorte.
Ele deu outro abraço em Annabeth. Bateu no meu ombro, e então retornou através das dunas. Fogos de artifício explodiram acima de nós: Hércules matando o leão da Neméia, Ártemis perseguindo o javali, George Washington (que, aliás, era um filho de Atena) cruzando o rio Delaware.
– Ei, Grover – chamei. Ele se voltou à margem do bosque. – Aonde quer que esteja indo, espero que façam boas enchiladas.
Grover sorriu, e se foi; as árvores se fechando em volta dele.
– Nós o veremos de novo – disse Annabeth.
Tentei acreditar nisso. O fato de que nenhum buscador jamais voltara em dois mil anos... bem, decidi não pensar nisso. Grover ia ser o primeiro. Tinha de ser.
Julho se foi. Eu passava os meus dias bolando novas estratégias para a captura da bandeira e fazendo alianças com os outros chalés para manter o estandarte fora das mãos de Ares. Cheguei até o topo da parede de escalada pela primeira vez sem ser tostado pela lava. De tempos em tempos, eu passava pela Casa Grande, dava uma olhada nas janelas do sótão e pensava no Oráculo. Tentei convencer a mim mesmo que a sua profecia se completara.
Você deve ir para o oeste, e enfrentar o deus que se tornou desleal. Estive lá, fiz isso – mesmo que no fim o deus traidor fosse Ares, e não Hades. Você deve encontrar o que foi roubado e devolver em segurança. Confere. Um raio-mestre entregue. Um elmo das trevas de volta na cabeça untuosa de Hades. Você será traído por aquele que o chama de amigo. Essa linha ainda me incomodava. Ares fingira ser meu amigo e depois me traíra. Devia ser isso que o Oráculo queria dizer... E no fim não conseguirá salvar aquilo que mais importa. Eu não conseguira salvar minha mãe, mas só porque eu a deixara se salvar sozinha, e sabia que era a coisa certa a fazer. Então por que ainda estava incomodado?
A última noite de verão chegou depressa demais. Os campistas fizeram uma última refeição juntos. Queimamos parte do nosso jantar para os deuses. Junto à fogueira, os conselheiros mais velhos entregaram as contas de fim de verão. Ganhei o meu próprio colar de couro, e quando vi a conta pelo meu primeiro verão, fiquei contente porque a luz da fogueira encobriu o vermelho na minha cara. O desenho era preto como piche, com um tridente verde-mar cintilando no centro.
– A escolha foi unânime – anunciou Luke. – Esta conta comemora o primeiro Filho do Deus do Mar neste acampamento, e a missão que ele assumiu para a parte mais escura do Mundo Inferior para impedir uma guerra!
O acampamento inteiro se pôs de pé e aplaudiu. Mesmo o chalé de Ares se sentiu na obrigação de levantar. O chalé de Atenas empurrou Annabeth para a frente para que ela pudesse compartilhar os aplausos. Acho que nunca na vida me senti ao mesmo tempo tão feliz ou e tão triste como naquele momento. Finalmente encontrara uma família, gente que se preocupava comigo e achava que eu tinha feito alguma coisa de modo certo. E, pela manhã, a maior parte deles ficaria fora o resto do ano. Na manhã seguinte encontrei uma carta padronizada na minha mesa de cabeceira. Soube que devia ter sido preenchida por Dioníso, pois ele insistia teimosamente em errar o meu nome:
Caro Peter Johnson,
Se você pretende permanecer no Acampamento Meio-Sangue o ano inteiro, precisa informar a Casa Grande até o meio-dia de hoje. Caso não anuncie suas intenções, presumiremos que você vagou o seu chalé ou morreu de uma morte horrível. Harpias da limpeza começarão seu trabalho ao pôr do sol. Elas estarão autorizadas a comer qualquer campista não registrado. Todos os artigos pessoais deixados para trás serão incinerados no poço de lava. Tenha um bom dia!
Senhor D (Dioniso) Diretor do Acampamento, Conselheiro Olimpiano n° 12.
Essa é mais uma questão do transtorno do déficit de atenção. Os prazos simplesmente não existem para mim até que não tenha mais jeito. O verão acabara, e eu ainda não havia respondido para a minha mãe, nem para o acampamento, se iria ficar. Agora tinha apenas algumas horas para decidir. A decisão tinha tudo para ser fácil. Quer dizer, nove meses treinando para herói, ou nove meses sentado numa sala de aula – fala sério! Mas havia a minha mãe para considerar. Pela primeira vez eu tinha oportunidade de morar com ela por um ano inteiro, sem Gabe. Tinha chance de estar em casa e perambular pela cidade nas horas livres. Lembrei-me do que Annabeth dissera tanto tempo atrás sobre a nossa missão: O mundo real é onde os monstros estão. É onde a gente aprende se serve para alguma coisa ou não.
Pensei no destino de Thalia, filha de Zeus. Fiquei pensando quantos monstros me atacariam se eu deixasse a Colina Meio-Sangue. Se eu ficasse em um só lugar durante todo um ano escolar, sem Quíron e meus amigos em volta para me ajudar, será que minha mãe e eu sobreviveríamos até o próximo verão? E isso presumindo que os testes de ortografia e os ensaios de cinco parágrafos não me matassem. Decidi ir até a arena e praticar um pouco de esgrima. Talvez isso me clareasse a cabeça.
A área do acampamento estava deserta na maior parte, tremeluzindo no calor de agosto. Todos os campistas estavam nos seus chalés fazendo as malas, ou correndo de um lado para outro com vassouras e esfregões, preparando-se para a inspeção final. Argos estava ajudando algumas filhas de Afrodite a carregar suas malas e estojos de maquiagem Gucci para o outro lado da colina, onde o ônibus do acampamento estaria esperando para levá-las ao aeroporto.
Não pense em partir ainda, disse para mim mesmo. Apenas treine. Cheguei à arena dos espadachins e descobri que Luke tivera a mesma ideia. Sua sacola estava jogada na beirada da arena. Ele estava treinando sozinho, investindo violentamente contra bonecos com uma espada que eu nunca tinha visto antes. Devia ser uma espada toda de aço, pois decepava de um golpe as cabeças dos bonecos e atravessava com estocadas as suas tripas recheadas de palha. Sua camisa laranja de conselheiro pingava de suor. A expressão dele era tão intensa que dava para pensar que sua vida estava realmente em perigo.
Eu assisti, fascinado, enquanto ele destripava toda a fileira de bonecos, cortando fora os membros e basicamente os reduzindo a uma pilha de palha e armaduras. Eram apenas bonecos, mas ainda assim eu não podia deixar de ficar assombrado com a habilidade de Luke. O cara era um guerreiro incrível. Aquilo me fez pensar, novamente, como ele podia ter falhado em sua missão. Por fim ele me viu e interrompeu-se no meio de um golpe.
– Percy.
– Ahn, desculpe – disse eu, embaraçado. – Eu só...
– Tudo bem – disse ele, abaixando a espada. – Estava só dando uma treinada de último minuto.
– Aqueles bonecos nunca mais vão incomodar ninguém.
Luke encolheu os ombros.
– Nós fazemos novos todo verão.
Agora que a espada não estava mais rodopiando de um lado para outro, pude ver algo de estranho nela. A lâmina era feita com dois tipos de metal diferentes – um fio de bronze, o outro de aço.
Luke reparou que eu estava olhando.
– Ah, isso? Brinquedo novo. Esta é a Mordecostas.
– Mordecostas?
Luke virou a lâmina na luz, e a fez brilhar de um jeito maligno.
– Um lado é de bronze celestial. O outro é de aço temperado. Funciona tanto em mortais como em imortais.
Pensei no que Quíron tinha me dito quando eu comecei a minha missão – que um herói jamais deve ferir mortais a não ser que seja absolutamente necessário.
– Eu não sabia que eles podiam fazer armas como esta.
– Eles provavelmente não – concordou Luke. – Esta aqui é única. – Ele me deu um sorrisinho mínimo e então enfiou a espada na bainha. – Escute. Eu estava indo procurar por você. O que me diz de irmos até a floresta uma última vez, para procurar algo para enfrentar?
Não sei por que hesitei. Devia ter me sentido aliviado por Luke estar sendo tão amigável. Desde que eu voltara da missão ele vinha agindo de modo um pouco distante. Estava com medo de que ele estivesse ressentido com toda a atenção que eu recebera.
– Você acha que é uma boa ideia? – perguntei. – Quero dizer...
– Ora, vamos. – Ele remexeu na sua sacola e tirou de lá uma embalagem de seis Cocas. – Bebidas por minha conta.
Olhei para as Cocas, me perguntando onde diabo as teria conseguido. Não havia refrigerantes mortais comuns na loja do acampamento. Não havia como consegui-los a não ser que a gente falasse com um sátiro, talvez. Naturalmente, as taças mágicas do jantar se encheriam com qualquer coisa que a gente quisesse, mas não tinham exatamente o mesmo gosto de uma Coca de verdade, saída da lata. Açúcar e cafeína. Minha força de vontade desmoronou.
– Claro – decidi. – Por que não?
Fomos andando até a floresta e perambulamos sem rumo à procura de algum tipo de monstro para enfrentar, mas estava quente demais. Todos os monstros com um mínimo de bom senso deviam estar fazendo a sesta nas suas cavernas agradáveis e frescas. Encontramos um lugar à sombra junto ao regato onde eu quebrara a lança de Clarisse durante meu primeiro jogo de captura da bandeira. Sentamo-nos em uma grande pedra, bebemos as nossas Cocas e ficamos olhando para a luz do sol na floresta. Depois de algum tempo, Luke disse:
– Sente falta de estar em uma missão?
– Com monstros me atacando a cada passo? Fala sério!
Luke ergueu uma sobrancelha.
– Sim, eu sinto falta – admiti.
– E você?
Uma sombra passou pelo seu rosto. Eu estava acostumado a ouvir as meninas dizerem como Luke era bonito, mas naquele momento ele pareceu cansado, zangado e nem um pouco bonito. Seu cabelo loiro estava cinzento à luz do sol. A cicatriz no rosto parecia mais funda que de costume. Parecia estar vendo um velho.
– Vivo na Colina Meio-Sangue o ano inteiro desde que tinha catorze anos – contou-me. – Desde que Thalia... bem, você sabe. Treinei, treinei e treinei. Nunca cheguei a ser um adolescente normal, lá fora no mundo real. Então eles me jogaram numa missão, e quando voltei, foi tipo, "Certo, o passeio acabou. Passe bem".
Ele amarrotou a sua Coca e a atirou no regato, o que realmente me chocou. Uma das primeiras coisas que a gente aprende no Acampamento Meio-Sangue é: não jogue lixo no chão. Você será repreendido pelas ninfas e náiades. Elas ajustarão as contas. Você cai na cama uma noite e encontra os lençóis cheios de centopeias e lama.
– Para o diabo com as coroas de louros – disse Luke. – Não vou terminar como aqueles troféus empoeirados no sótão da Casa Grande.
– Você está parecendo alguém que vai embora.
Luke me deu um sorriso torto.
– Oh, eu estou indo embora, sem dúvida, Percy. Trouxe você aqui para dizer adeus.
Ele estalou os dedos. Um pequeno fogo queimou um buraco no chão aos meus pés. De lá, saiu se arrastando alguma coisa preta e brilhante, mais ou menos do tamanho da minha mão. Um escorpião. Comecei a procurar a minha caneta. – Eu não faria isso – advertiu Luke. – Escorpiões das profundezas podem pular até cinco metros. Seu ferrão pode perfurar as suas roupas. Você estaria morto em sessenta segundos.
– Luke, o que... – Então caiu a ficha. Você será traído por aquele que o chama de amigo.– Você – disse eu.
Ele se levantou calmamente e sacudiu o pó dos seus jeans. O escorpião não lhe deu atenção. Seus olhos pequenos e brilhantes continuavam fixos em mim, apertando as pinças enquanto se arrastava para cima do meu sapato.
– Eu vi muita coisa lá fora no mundo, Percy – disse Luke. – Você não sentiu... a escuridão se acumulando, os monstros ficando mais fortes? Não percebeu como tudo é inútil? Todos os feitos heroicos... Nós não passamos de peões dos deuses. Eles já deviam ter sido derrubados há milhares de anos, mas persistem, graças a nós, meios-sangues. Eu não podia acreditar no que estava acontecendo.
– Luke... você está falando dos nossos pais – disse eu.
Ele riu.
– E por isso eu preciso amá-los? A sua preciosa "civilização ocidental" é uma doença, Percy. Ela está matando o mundo. O único meio de detê-la é queimá-la completamente e começar tudo de novo com algo mais honesto.
– Você é tão louco quanto Ares.
Seus olhos flamejaram.
– Ares é um tolo. Ele nunca percebeu quem é o verdadeiro mestre a quem está servindo. Se eu tivesse tempo, Percy, poderia explicar. Mas infelizmente você não vai viver tanto.
O escorpião se arrastou para cima da perna das minhas calças. Tinha de haver um meio de sair dessa. Eu precisava de tempo para pensar.
– Cronos – disse eu. – É a ele que você serve.
O ar ficou mais frio.
– Você devia ter cuidado com nomes – avisou Luke.
– Cronos fez você roubar o raio-mestre e o elmo. Ele falou com você nos seus sonhos.
O olho de Luke se contraiu.
– Ele falou com você também, Percy. Devia ter ouvido.
– Ele está fazendo uma lavagem cerebral em você, Luke.
– Você está errado. Ele me mostrou que os meus talentos estão sendo desperdiçados. Você sabe qual foi a minha missão dois anos atrás, Percy? Meu pai, Hermes, queria que eu roubasse um pomo de ouro do jardim das Hespérides e o levasse ao Olimpo. Depois de todo o treinamento que fiz, aquilo foi o melhor em que ele pôde pensar.
– Essa não é uma missão fácil – disse eu. – Hércules fez isso.
– Exatamente – disse Luke. – Onde está a glória em repetir o que outros já fizeram? Tudo o que os deuses sabem fazer é repetir o passado. Meu coração não estava naquilo. O dragão do jardim me deu isto – ele apontou para a cicatriz – e quando voltei, tudo o que ganhei foi piedade. Eu queria destruir o Olimpo pedra por pedra naquele momento, mas esperei pelo momento certo. Comecei a sonhar com Cronos. Ele me convenceu a roubar alguma coisa que valesse a pena, algo que nenhum herói jamais tivera a coragem de pegar. Quando fomos naquela excursão do solstício de inverno, enquanto os outros campistas dormiam, entrei furtivamente na sala do trono e peguei o raio-mestre de Zeus bem em cima da cadeira dele. O elmo das trevas de Hades também. Você não tem ideia como foi fácil. Os olimpianos são tão arrogantes; eles nunca nem sonharam que alguém se atrevesse a roubá-los. A segurança deles é horrível. Eu já estava a meio caminho através de New Jersey antes de ouvir as tempestades, e soube que eles tinham descoberto o meu roubo.
O escorpião agora estava parado no meu joelho, me olhando com seus olhos brilhantes. Tentei manter a voz no mesmo nível.
– Então por que não levou os objetos para Cronos? – O sorriso de Luke vacilou.
– Eu... eu fiquei confiante demais. Zeus mandou seus filhos e filhas para encontrar o raio roubado: Ártemis, Apolo, meu pai, Hermes. Mas foi Ares quem me pegou. Eu podia tê-lo vencido, mas não fui bastante cuidadoso. Ele me desarmou, tomou de mim os objetos de poder, ameaçou devolvê-los ao Olimpo e me queimar vivo. Então a voz de Cronos veio a mim e me falou o que dizer. Pus na cabeça de Ares a ideia de uma grande guerra entre os deuses. Disse que tudo o que ele teria de fazer seria esconder os objetos por algum tempo e ficar assistindo enquanto os outros lutavam. Um brilho perverso surgiu nos olhos de Ares. Eu sabia que ele estava fisgado. Ele me deixou ir, e eu voltei ao Olimpo antes que alguém notasse a minha ausência. – Luke sacou a sua nova espada. Ele correu o polegar pela parte achatada da lâmina, como se estivesse hipnotizado por sua beleza. – Depois, o Senhor dos Titãs... e-ele me castigou com pesadelos. Eu jurei não falhar outra vez. De volta ao Acampamento Meio-Sangue, em meus sonhos, me foi dito que um segundo herói chegaria, um que poderia ser enganado para levar o raio e o elmo o resto do caminho, de Ares até o Tártaro.
– Você convocou o cão infernal aquela noite na floresta.
– Tínhamos de fazer Quíron pensar que o acampamento não era seguro para você, e assim ele iria dar início à sua missão. Tínhamos de confirmar seus temores de que Hades estava atrás de você. E funcionou.
– Os tênis voadores estavam amaldiçoados – disse eu. – Eles deveriam me arrastar com a mochila para dentro do Tártaro.
– E teriam, se você os estivesse usando. Mas você os deu ao sátiro, o que não era parte do plano. Grover bagunça tudo o que ele toca. Confundiu até a maldição. – Luke baixou os olhos para o escorpião, que estava agora parado na minha coxa. – Você devia ter morrido no Tártaro, Percy. Mas não se preocupe. Vou deixá-lo com o meu pequeno amigo para corrigir as coisas.
– Thalia deu a vida dela para salvá-lo – disse eu rangendo os dentes. – E é assim que você retribui?
– Não fale de Thalia! – berrou ele. – Os deuses a deixaram morrer! Essa é uma das muitas coisas pelas quais eles pagarão.
– Você está sendo usado, Luke. Você e Ares, os dois. Não dê ouvidos a Cronos.
– Eu estou sendo usado? – A voz de Luke ficou estridente. – Olhe para você mesmo. O que o seu pai já fez por você? Cronos se erguerá. Você apenas retardou os seus planos. Ele irá lançar os olimpianos no Tártaro e mandará a humanidade de volta para as cavernas. Todos menos os mais fortes; aqueles que o servem.
– Chame de volta o seu bicho rastejante – disse eu. – Se você é tão forte, lute comigo você mesmo.
Luke sorriu.
– Boa tentativa, Percy. Mas eu não sou Ares. Você não pode me engabelar. Meu senhor está esperando, e ele tem muitas missões para mim.
– Luke...
– Adeus, Percy. Uma nova Idade do Ouro está chegando. Você não será parte dela. Ele traçou um arco com a espada e desapareceu numa onda de escuridão. O escorpião deu o bote.
Eu o joguei de lado com a mão e destampei a espada. A coisa pulou em cima de mim e eu a cortei ao meio no ar. Estava a ponto de me congratular quando olhei para a minha mão. Na palma havia um enorme vergão vermelho, que destilava uma secreção amarela e fumegante. A coisa me pegara, afinal. Meus ouvidos latejavam. Minha visão ficou embaçada. A água, pensei. Ela já me curara antes. Cambaleei até o regato e mergulhei a mão, mas nada pareceu acontecer. O veneno era forte demais. Minha visão estava escurecendo. Eu mal conseguia ficar em pé. Sessenta segundos, Luke me dissera. Eu tinha de voltar ao acampamento. Se desmaiasse aqui, meu corpo seria o jantar de algum monstro. Ninguém jamais saberia o que aconteceu. Minhas pernas pareciam feitas de chumbo. Minha testa queimava. Fui cambaleando até o acampamento, e as ninfas despertaram de suas árvores.
– Socorro – grasnei. – Por favor...
Duas delas seguraram os meus braços e me puxaram para frente. Lembro-me de chegar até a clareira, de um conselheiro gritando por ajuda, de um centauro tocando uma trombeta de concha. Então tudo escureceu.
Acordei com um canudinho na boca. Estava bebendo alguma coisa que tinha gosto de biscoitos de flocos de chocolate líquidos. Néctar. Abri os olhos. Estava reclinado na cama no quarto de doentes da Casa Grande, a mão direita enfaixada como um pedaço de pau. Argos montava guarda no canto. Annabeth estava sentada ao meu lado, segurando o copo de néctar e enxugando a minha testa com uma toalha.
– Aqui estamos nós outra vez – disse eu.
– Seu idiota – disse Annabeth, e foi como eu percebi que ela estava radiante por me ver consciente. – Você estava verde e ficando cinzento quando o encontramos. Se não fosse o tratamento de Quíron...
– Vamos, vamos – disse a voz de Quíron. – A constituição de Percy merece parte do crédito.
Ele estava sentado perto do pé da minha cama em forma humana, e foi por isso que eu não o notara antes. Sua parte inferior estava magicamente compactada na cadeira de rodas, e a parte superior usava casaco e gravata. Ele sorriu, mas seu rosto parecia cansado e pálido, como quando passava a noite em claro corrigindo provas de latim.
– Como está se sentindo? – perguntou.
– Como se as minhas entranhas tivessem sido congeladas e depois assadas no micro-ondas.
– Apropriado, considerando que foi veneno de escorpião das profundezas. Agora você tem de me contar, se puder, exatamente o que aconteceu.
Entre goles de néctar, contei-lhes a história. O quarto ficou em silêncio por um longo tempo.
– Eu não posso acreditar que Luke... – A voz de Annabeth vacilou. Sua expressão ficou zangada e triste. – Sim. Sim, eu posso acreditar. Que os deuses o amaldiçoem... Ele nunca mais foi o mesmo depois da sua missão.
– Isso deve ser relatado ao Olimpo – murmurou Quíron. – Irei imediatamente.
– Luke está lá fora agora – disse eu. – Preciso ir atrás dele.
Quíron sacudiu a cabeça.
– Não, Percy. Os deuses...
– Nem mesmo falam sobre Cronos – disparei. – Zeus declarou o assunto encerrado!
– Percy, eu sei que é difícil. Mas você não deve correr atrás de vingança. Você não está preparado. Eu não gostei, mas parte de mim suspeitava que Quíron estava certo. Bastava uma olhada para a minha mão e dava para ver que não haveria lutas de espada tão cedo.
– Quíron... a sua profecia do Oráculo... era sobre Cronos, não era? Eu estava nela? E Annabeth?
Quíron olhou nervosamente para o teto.
– Percy, não cabe a mim...
– Você recebeu ordens de não falar comigo sobre isso, não foi?
Seus olhos eram solidários, mas tristes.
– Você será um grande herói, criança. Darei o melhor de mim para prepará-lo. Mas se estou certo quanto ao caminho à sua frente... – O trovão ribombou acima, chacoalhando as janelas. – Está certo! – gritou Quíron. – Perfeito! – Ele suspirou com frustração. – Os deuses têm suas razões, Percy. Saber demais sobre o próprio futuro nunca é uma boa coisa.
– Não podemos simplesmente ficar sentados sem fazer nada – disse eu.
– Nós não vamos ficar sentados – prometeu Quíron. – Mas você precisa ter cuidado. Cronos quer que você seja destruído. Ele quer a sua vida interrompida, os seus pensamentos obscurecidos por medo e raiva. Não dê a ele o que ele quer. Treine pacientemente. O seu momento chegará.
– Presumindo que eu esteja vivo até lá.
Quíron pousou a mão no meu tornozelo.
– Você terá de confiar em mim, Percy. Você viverá. Mas primeiro precisa decidir seu caminho para o próximo ano. Não posso dizer a você qual é a escolha certa... – Tive a impressão de que ele tinha uma opinião muito bem definida, e estava usando toda a sua força de vontade para não me aconselhar. – Mas você precisa decidir se vai ficar no Acampamento Meio-Sangue o ano inteiro, ou se vai voltar ao mundo mortal para a sétima série e ser um campista de verão. Pense nisso. Quando eu voltar do Olimpo, você terá de me contar a sua decisão.
Eu quis protestar. Quis lhe fazer mais perguntas. Mas sua expressão me disse que não haveria mais discussão; ele já dissera tudo o que podia.
– Estarei de volta assim que puder – prometeu Quíron. – Argos o protegerá.
Ele lançou um olhar para Annabeth.
– Ah, e minha querida... quando estiver pronta, eles estão aqui.
– Quem está aqui? – perguntei.
Ninguém respondeu. Quíron rodou para fora do quarto. Ouvi o som metálico abafado das rodas da sua cadeira descendo cautelosamente os degraus da frente, dois de cada vez. Annabeth estudou o gelo na minha bebida.
– O que está errado? – perguntei a ela.
– Nada. – Ela pôs o copo sobre a mesa. – Eu... apenas aceitei o seu conselho sobre algo. Você... ahn... precisa de alguma coisa?
– Sim. Ajude-me a levantar. Quero ir para fora.
– Percy, não é uma boa ideia.
Arrastei as pernas para fora da cama. Annabeth me agarrou antes que eu desabasse no chão. Uma onda de náusea me acometeu. Annabeth disse:
– Eu falei...
– Estou ótimo – insisti.
Eu não queria ficar deitado na cama como um inválido enquanto Luke estava lá fora planejando destruir o mundo ocidental. Consegui dar um passo para a frente. Depois outro, ainda me apoiando pesadamente em Annabeth. Argos nos seguiu para fora, mas manteve distância. Quando chegamos à varanda, meu rosto estava molhado de suor. Meu estômago se contorcia em nós. Mas eu conseguira ir até a cerca. Estava anoitecendo. O acampamento parecia completamente deserto. Os chalés estavam escuros e a quadra de vôlei, silenciosa. Nenhuma canoa cortava a superfície do lago. Além dos bosques e dos campos de morangos, o estreito de Long Island brilhava com os últimos raios do sol.
– O que você vai fazer? – perguntou-me Annabeth.
– Eu não sei.
Disse a ela que tinha a sensação de que Quíron queria que eu ficasse o ano inteiro, para ter mais tempo de treinamento individual, mas eu não tinha certeza de que era isso o que queria. Porém admiti que me sentia mal por deixá-la sozinha, com Clarisse por companhia... Annabeth apertou os lábios e então disse baixinho:
– Eu vou passar o ano em casa, Percy.
Eu olhei para ela.
– Você quer dizer, com o seu pai?
Ela apontou para o cume da Colina Meio-Sangue. Junto ao pinheiro de Thalia, bem no limite das fronteiras mágicas do acampamento, havia uma família em silhueta – duas crianças pequenas, uma mulher e um homem alto de cabelos loiros. Pareciam estar aguardando. O homem segurava uma mochila parecida com a que Annabeth pegara no Parque Aquático em Denver.
– Eu escrevi uma carta para ele quando voltamos – disse Annabeth. – Como você sugeriu. Eu disse a ele... que sentia muito. Que iria para casa passar o ano escolar se ele ainda me quisesse. Ele respondeu na mesma hora. Nós decidimos... que íamos tentar de novo.
– Foi preciso coragem para isso.
Ela apertou os lábios.
– Você não vai tentar nada de estúpido durante o ano escolar, vai? Pelo menos... não sem me mandar uma mensagem de íris?
Consegui sorrir.
– Não vou procurar encrenca. Normalmente eu não preciso.
– Quando eu voltar no próximo verão – disse ela – vamos caçar Luke. Vou pedir uma missão, mas se não tivermos aprovação, vamos sair escondidos e fazer isso do mesmo jeito. De acordo?
– Parece um plano digno de Atena.
Ela estendeu a mão. Eu a apertei.
– Cuide-se, Cabeça de Alga – disse Annabeth. – Mantenha os olhos abertos.
– Você também, Sabidinha. Fiquei olhando enquanto ela subia a colina para se juntar à família. Ela deu um abraço meio sem jeito no pai e olhou para o vale atrás dela uma última vez. Tocou o pinheiro de Thalia e então se deixou levar por cima do cume e para dentro do mundo mortal. Pela primeira vez no acampamento, me senti verdadeiramente só. Olhei para o estreito de Long Island e me lembrei do meu pai dizendo: O mar não gosta de ser contido. Tomei minha decisão. Fiquei pensando: se Poseidon estivesse vendo, ele aprovaria a minha escolha?
– Estarei de volta no próximo verão – prometi a ele. – Sobreviverei até lá. Afinal, eu sou seu filho.
Pedi a Argos para me levar até o chalé 3, para eu arrumar as minhas coisas antes de ir para casa.
Capítulo 21
Meu acerto de contas
É gozado como os seres humanos são capazes de enrolar a sua mente em volta das coisas e encaixá-las na sua versão de realidade. Quíron me contara isso muito tempo atrás. Como de costume, eu só dei bola para sua sabedoria muito tempo depois. De acordo com as notícias de Los Angeles, a explosão na praia de Santa Monica tinha sido causada quando um sequestrador enlouquecido disparou uma espingarda contra uma viatura da polícia. Ele acidentalmente atingiu um tubo principal de gás que se rompera durante o terremoto. Esse sequestrador enlouquecido (também conhecido como Ares) era o mesmo homem que me abduzira com dois outros adolescentes em New York e nos trouxera até o outro lado do país em uma odisseia de terror que durara dez dias. O pobrezinho do Percy Jackson, afinal, não era um criminoso internacional. Ele causara uma comoção naquele ônibus da Greyhound em New Jersey tentando escapar do seu sequestrador (e depois, testemunhas chegaram a jurar que tinham visto o homem de roupa de couro no ônibus – "Por que não me lembrei dele antes?"). O homem enlouquecido causara a explosão no Arco de St. Louis. Afinal, nenhum garotinho poderia ter feito aquilo. Uma garçonete preocupada de Denver vira o homem ameaçar seus sequestrados do lado de fora do seu restaurante, chamara um amigo para tirar uma foto, e notificara a polícia. Finalmente, o bravo Percy Jackson (eu estava começando a gostar desse menino) subtraíra uma espingarda do seu sequestrador em Los Angeles e lutara contra ele, espingarda contra rifle, na praia. A polícia chegara bem a tempo. Mas, na espetacular explosão, cinco viaturas da polícia foram destruídas e o sequestrador fugira. Não houve mortes. Percy Jackson e seus dois amigos estavam em segurança, sob custódia da polícia. Os repórteres nos forneceram essa história inteira. Nós apenas assentimos e nos fizemos de chorosos e exaustos (o que não foi difícil), e representamos o papel de crianças vitimizadas para as câmeras.
– Tudo o que eu quero – disse eu, contendo as lágrimas – é ver o meu adorado padrasto de novo. Toda vez que o via na tevê me chamando de punk delinquente, eu sabia... de algum modo... que tudo ia dar certo. E eu sei que ele vai querer recompensar uma por uma todas as pessoas desta linda cidade de Los Angeles com um eletrodoméstico grátis, dos grandes, da sua loja. Aqui está o número do telefone.
A polícia e os repórteres ficaram tão comovidos que passaram o chapéu e levantaram dinheiro para três passagens no próximo avião para Nova York. Eu sabia que não havia escolha senão voar. Esperava que Zeus me desse algum tempo de lambuja, consideradas as circunstâncias. Mas ainda assim foi difícil me forçar a embarcar no voo. A decolagem foi um pesadelo. Cada momento de turbulência era mais assustador que um monstro grego. Eu não larguei dos braços da poltrona até pousarmos em segurança no aeroporto de La Guardia. A imprensa local aguardava por nós do lado de fora da segurança, mas conseguimos escapar graças a Annabeth, que atraiu para longe com o seu boné dos Yankees invisível, gritando:
– Eles estão lá, perto da sorveteria! Venham! e depois juntou a nós na área de retirada de bagagem. Separamo-nos no ponto de táxi. Eu disse a Annabeth e Grover para voltar à Colina Meio-Sangue e contar a Quíron o que acontecera. Eles protestaram, e era difícil deixá-los partir depois de tudo que passamos juntos, mas eu sabia que tinha de cumprir essa última parte da minha missão sozinho. Se as coisas dessem errado, se os deuses não acreditassem em mim... eu queria que Annabeth e Grover sobrevivessem para contar a verdade a Quíron. Embarquei em um táxi e segui para Manhattan.
Trinta minutos depois, entrei no saguão do Edifício Empire State. Devo ter parecido uma criança abandonada, com minhas roupas esfarrapadas e minha cara toda arranhada. Eu não dormia havia pelo menos vinte e quatro horas.
Fui até o guarda na mesa da recepção e disse:
– Seiscentésimo andar.
Ele estava lendo um livro enorme com a figura de um feiticeiro na capa. Eu não curto muito fantasia, mas acho que o livro era bom, porque o guarda levou algum tempo para erguer os olhos.
– Esse andar não existe, garoto.
– Eu preciso de uma audiência com Zeus. – Ele me deu um sorriso vago. – O quê?
– Você me ouviu.
Eu já estava quase concluindo que aquele cara era apenas um mortal comum, e era melhor eu correr antes que ele chamasse a patrulha da camisa de força, quando ele disse:
– Sem hora marcada, nada de audiência, garoto. O Senhor Zeus não atende ninguém sem aviso prévio.
– Ah, eu acho que ele vai abrir uma exceção.
Tirei a mochila das costas e abri o zíper. O guarda olhou para o cilindro metálico lá dentro sem entender o que era por alguns segundos. Então seu rosto empalideceu.
– Isto não é...
– Sim, é – garanti. – Você quer que eu o tire e...
– Não! Não!
Ele se ergueu atabalhoadamente da sua cadeira, tateou em volta da mesa procurando um cartão-chave, e o entregou para mim.
– Insira na fenda de segurança. Certifique-se de que ninguém mais esteja no elevador com você.
Fiz o que ele me disse. Assim que as portas do elevador se fecharam, enfiei o cartão na fenda. O cartão desapareceu e um novo botão apareceu no quadro, um botão vermelho que dizia 600. Apertei e esperei, e esperei. Havia música tocando. "Raindrops keepfalling on my head..." Finalmente, plim. As portas se abriram. Saí e quase tive um ataque do coração. Eu estava em um estreito caminho de pedra no meio do ar. Abaixo de mim se encontrava Manhattan, da altura de um avião.
Diante de mim, degraus de mármore branco subiam em espiral pelo meio de uma nuvem até o céu. Meus olhos seguiram a escada até o fim, onde meu cérebro simplesmente não pôde aceitar o que vi. Olhem outra vez, disse meu cérebro. Estamos olhando, meus olhos insistiram. Está realmente lá. Do topo das nuvens se erguia o pico decapitado de uma montanha, o cume coberto de neve. Na encosta da montanha havia dúzias de palácios com vários níveis – uma cidade de mansões – todos com pórticos de colunas brancas, terraços dourados e braseiros de bronze brilhando com mil fogos. Estradas se enroscavam de um jeito maluco até o pico, onde o maior dos palácios resplandecia contra a neve. Jardins precariamente encarapitados floresciam com oliveiras e roseiras. Pude distinguir um mercado a céu aberto cheio de tendas coloridas, um anfiteatro de pedra construído em um lado da montanha, um hipódromo e um coliseu do outro. Era uma cidade grega antiga, só que não estava em ruínas. Era nova, limpa e colorida, como Atenas deve ter sido há dois mil e quinhentos anos.
Este palácio não pode estar aqui, disse para mim mesmo. A ponta de uma montanha pendurada em cima da cidade de Nova York como um asteroide de um bilhão de toneladas? Como podia uma coisa assim estar ancorada acima do Edifício Empire State a plena vista de milhões de pessoas, e não ser notada? Mas aqui estava. E aqui estava eu. Minha viagem pelo Olimpo foi deslumbrante. Passei por algumas ninfas das florestas que deram risadinhas e me atiraram azeitonas do seu pomar. No mercado, mascates se ofereceram para vender ambrosia-no-palito, um escudo novo e uma réplica genuína do Velocino de Ouro em tecido cintilante, conforme anunciado na tevê Hefesto. As nove musas afinavam seus instrumentos para um concerto no parque enquanto uma pequena multidão se reunia – sátiros, náiades e um bando de adolescentes de boa aparência que talvez fossem deuses e deusas menores.
Ninguém parecia preocupado com uma guerra civil iminente. De fato, todo mundo parecia estar num estado de ânimo festivo. Vários se voltaram para me ver passar e cochicharam entre si. Subi pela estrada principal rumo ao grande palácio no pico. Era uma cópia invertida do palácio no Mundo Inferior. Lá, tudo era preto e bronze. Aqui, tudo rebrilhava em branco e prata. Dei-me conta de que Hades deve ter construído o seu palácio para se parecer com este. Ele não era bem-vindo no Olimpo, exceto no solstício de inverno, então construiu seu próprio Olimpo embaixo da terra. A despeito da minha má experiência com ele, senti pena do cara. Ser banido deste palácio parecia realmente injusto. Era de deixar qualquer um amargo. Degraus levavam a um pátio central. Além dele, a sala do trono. Sala não é exatamente a palavra certa. O lugar fazia a Grande Estação Central parecer um armário de vassouras. Colunas maciças se erguiam até um teto abobadado, que era decorado com constelações que se moviam. Doze tronos, construídos para seres do tamanho de Hades, estavam arrumados em um U invertido, exatamente como os chalés do Acampamento Meio-Sangue. Uma enorme fogueira crepitava no braseiro central. Os tronos estavam vazios com exceção de dois no fim: o trono principal à direita e um imediatamente à sua esquerda. Ninguém precisou me dizer quem eram os dois deuses que estavam sentados lá, esperando que eu me aproximasse. Cheguei à frente deles com as pernas tremendo. Os deuses estavam em forma humana gigante, como Hades estivera, mas eu mal podia olhar para eles sem sentir um formigamento, como se o meu corpo estivesse começando a queimar. Zeus, o Senhor dos Deuses, usava um terno risca-de-giz azul-escuro. Estava sentado em um trono simples de platina maciça. Tinha uma barba bem aparada, cinza-mármore e preta, como uma nuvem de tempestade. Seu rosto era orgulhoso belo e severo, os olhos tinham o tom cinzento da chuva. Quando me aproximei dele, o ar estralou e senti cheiro de ozônio. O deus sentado ao lado dele era seu irmão, sem dúvida, mas estava vestido de modo muito diferente. Lembrou-me um catador de praia de Key West. Usava sandálias de couro, bermudas caqui e uma camisa marca Tommy Bahama toda estampada de coqueiros e papagaios. Sua pele tinha um bronzeado escuro e as mãos eram marcadas de cicatrizes como as de um velho pescador. O cabelo era preto, como o meu. Seu rosto tinha o mesmo ar taciturno que sempre me fez ser rotulado de rebelde. Mas os olhos, verde-mar como os meus, eram rodeados de rugas que me diziam que ele também sorria muito. Os deuses não estavam se movendo nem falando, mas havia tensão no ar, como se tivessem acabado de discutir. Aproximei-me do trono do pescador e me ajoelhei aos seus pés.
– Pai.
Não ousei olhar para cima. Meu coração estava disparado, eu podia sentir a energia que emanava dos dois deuses. Se eu dissesse a coisa errada, não havia dúvida de que eles poderiam me reduzir a pó. A minha esquerda, Zeus falou:
– Você não deveria se dirigir primeiro ao senhor desta casa, menino? – Mantive a cabeça baixa e esperei.
– Paz, irmão – disse por fim Poseidon. Sua voz mexeu com as minhas lembranças mais antigas: aquela sensação morna de que me lembrava, de quando eu era bebê, a sensação da sua mão de deus sobre a minha testa. – O menino submete-se ao seu pai. Está certo.
– Então você ainda o reclama como seu? – perguntou Zeus, ameaçadoramente. – Você reclama esta criança que procriou contrariando o nosso sagrado juramento?
– Eu admiti a minha transgressão – disse Poseidon. – E agora vou ouvi-lo falar.
Transgressão. Senti um nó na garganta. Era isso tudo o que eu era? Uma transgressão? O resultado do erro de um deus?
– Eu já o poupei uma vez – resmungou Zeus. – Ousando voar através dos meus domínios... bah! Eu devia tê-lo mandado pelos ares, para fora do céu pelo seu atrevimento.
– E correr o risco de destruir seu próprio raio-mestre? – perguntou Poseidon calmamente. – Vamos ouvi-lo, irmão.
Zeus resmungou mais um pouco.
– Ouvirei – resolveu. – E então decidirei se atirarei ou não este menino para fora do Olimpo.
– Perseu – disse Poseidon. – Olhe para mim.
Fiz isso, e não sei ao certo o que vi no seu rosto. Não havia sinal claro de amor ou aprovação. Nada para me encorajar. Era como olhar para o oceano: em alguns dias, era possível dizer como estava o seu humor. Na maioria dos dias, no entanto, era impossível de ler, misterioso. Tive a sensação de que Poseidon na verdade não sabia o que pensar de mim. Não sabia se estava feliz por ter-me como filho ou não. De um modo estranho, eu estava contente por Poseidon estar tão distante. Se ele tivesse tentado se desculpar, ou dito que me amava, ou mesmo sorrido, teria parecido falso. Como um pai humano, dando alguma desculpa pouco convincente por não estar presente. Eu poderia viver com isso. Afinal, eu mesmo também não estava muito seguro a respeito dele.
– Dirija-se ao Senhor Zeus, menino – disse-me Poseidon. – Conte a ele a sua história.
Então contei tudo a Zeus, exatamente como havia acontecido. Tirei da mochila o cilindro de metal, que começou a fagulhar na presença do Deus do Céu, e o pus aos seus pés. Houve um longo silêncio, quebrado apenas pelo crepitar do fogo no braseiro.
Zeus abriu a palma da sua mão. O raio voou para dentro dela. Quando ele fechou o punho, os pontos metálicos fulguraram com eletricidade, até ele ficar segurando o que parecia mais um relâmpago clássico, um dardo de seis metros feito de energia com centelhas chiantes que fez os meus cabelos se eriçarem.
– Sinto que o menino diz a verdade – murmurou Zeus. – Mas não é nada típico de Ares fazer uma coisa assim.
– Ele é orgulhoso e impulsivo – disse Poseidon. – É coisa de família.
– Senhor? – chamei. Ambos disseram:
– Sim?
– Ares não agiu sozinho. Outra pessoa – ou outra coisa teve a ideia.
Descrevi os meus sonhos e a sensação que tive na praia, o momentâneo hálito do mal que parecera parar o mundo e fizera Ares desistir de me matar.
– Nos meus sonhos – disse eu – a voz me disse para levar o raio ao Mundo Inferior. Ares insinuou que também estava tendo sonhos. Acho que ele estava sendo usado, assim como eu, para começar uma guerra.
– Você está acusando Hades, afinal? – perguntou Zeus.
– Não – disse eu. – Quer dizer, Senhor Zeus, eu estive na presença de Hades. A sensação na praia foi diferente. Era a mesma coisa que senti quando cheguei perto daquele abismo. Aquela era entrada para o Tártaro, não era? Alguma coisa poderosa e maligna está se agitando lá embaixo... alguma coisa ainda mais antiga que os deuses.
Poseidon e Zeus se entreolharam. Eles tiveram uma rápida e intensa discussão em grego antigo. Só peguei uma palavra. Pai. Poseidon fez algum tipo de sugestão, mas Zeus o cortou. Poseidon tentou discutir. Zeus ergueu a mão, zangado.
– Não vamos mais falar disso – disse Zeus. – Preciso ir pessoalmente purificar este raio nas águas de Lemnos, para remover a mácula humana do seu metal. – Ele se levantou e olhou para mim. Sua expressão se suavizou uma fração de um grau. – Você me prestou um serviço, menino. Poucos heróis poderiam ter conseguido tanto.
– Eu tive ajuda, senhor – disse eu. – Grover Underwood e Annabeth Chase...
– Para demonstrar minha gratidão, pouparei sua vida. Não confio em você, Perseu Jackson. Não gosto do que a sua chegada significa para o futuro do Olimpo. Mas, em nome da paz na família, eu o deixarei viver.
– Ahn... obrigado, senhor.
– Não ouse voar de novo. Não me deixe encontrá-lo aqui quando eu voltar. Ou irá provar este raio. E será a sua última sensação.
Um trovão sacudiu o palácio. Com um clarão ofuscante, Zeus se foi. Eu estava sozinho na sala do trono com meu pai.
– O seu tio – suspirou Poseidon – sempre teve um talento especial para saídas teatrais. Acho que ele teria se saído bem como o deus do teatro.
Um silêncio constrangedor.
– Senhor – disse eu – o que havia naquele abismo?
Poseidon olhou atentamente para mim.
– Você não adivinhou?
– Cronos – disse eu. – O rei dos Titãs.
Mesmo na sala do trono do Olimpo, longe do Tártaro, o nome Cronos escureceu o ambiente, e fez o fogo no braseiro não parecer mais tão quente nas minhas costas. Poseidon segurou o seu tridente.
– Na Primeira Guerra Mundial, Percy, Zeus cortou o nosso pai Cronos em mil pedaços, exatamente como Cronos fizera com seu próprio pai, Urano. Zeus lançou os restos de Cronos no mais escuro abismo do Tártaro. O exército dos Titãs foi dispersado, sua fortaleza na montanha sobre o Etna, destruída, seus monstruosos aliados foram expulsos para os cantos mais distantes da Terra. E, contudo, Titãs não podem morrer, não mais que nós, deuses. O que resta de Cronos ainda vive de algum modo hediondo, ainda consciente em seu sofrimento eterno, ainda com fome de poder.
– Ele está se curando – disse eu. – Ele vai voltar.
Poseidon sacudiu a cabeça.
– De tempos em tempos, no decorrer das eras, Cronos se agita. Ele entra nos pesadelos dos homens e exala pensamentos malignos. Desperta monstros inquietos das profundezas. Mas sugerir que ele pode erguer-se do abismo é outra coisa.
– É o que ele pretende, pai. É o que ele disse.
Poseidon ficou em silêncio por um bom tempo.
– O Senhor Zeus encerrou a discussão sobre o assunto. Ele não permitirá que se fale de Cronos. Você completou a sua missão, criança. É tudo o que precisa fazer.
– Mas... – eu me interrompi. Discutir não iria adiantar nada. Muito possivelmente, irritaria o único deus que eu tinha do meu lado. – Como... como queira, pai.
Um leve sorriso brincou nos lábios dele.
– A obediência não lhe vem naturalmente, não é?
– Não... senhor.
– Devo ter alguma culpa por isso, imagino. O mar não gosta de ser contido. – Ele se ergueu em toda a sua altura e pegou seu tridente. Então tremeluziu e ficou do tamanho de um homem normal, em pé diante de mim. – Você precisa ir, criança. Mas primeiro saiba que sua mãe retornou.
Olhei para ele, completamente perplexo.
– Minha mãe?
– Você a encontrará em casa. Hades a enviou quando recuperou seu elmo. Até mesmo o Senhor da Morte paga as suas dívidas.
Meu coração disparou. Eu mal podia acreditar.
– Você... você vai...
Eu queria perguntar se Poseidon viria comigo para vê-la, mas então percebi que isso era ridículo. Imaginei-me embarcando com o Deus do Mar em um táxi e levando-o para o Upper East Side. Se durante todos aqueles anos ele tivesse desejado ver minha mãe, teria visto. E também era preciso pensar que Gabe Cheiroso estava lá. Os olhos de Poseidon ficaram um pouco tristes.
– Quando você voltar para casa, Percy, precisará fazer uma escolha importante. Irá encontrar um pacote esperando por você no seu quarto.
– Um pacote?
– Você entenderá quando o vir. Ninguém pode escolher o seu caminho, Percy. Você terá de decidir.
Assenti, embora sem saber o que ele queria dizer.
– Sua mãe é uma rainha entre as mulheres – disse Poseidon saudosamente. – Não conheci nenhuma mulher mortal como ela em mil anos. Ainda assim... sinto muito por você ter nascido, criança. Eu trouxe para você um destino de herói, e um destino de herói nunca é feliz. Não passa de um destino trágico.
Tentei não me sentir magoado. Ali estava o meu próprio pai, dizendo que sentia muito por eu ter nascido.
– Eu não me importo, pai.
– Ainda não, talvez – disse ele. – Ainda não. Mas foi um erro imperdoável da minha parte.
– Vou deixá-lo, então. – Eu me inclinei, desajeitado. – Não... não vou incomodá-lo de novo.
Eu estava a cinco passos de distância quando ele chamou:
– Perseu. – Eu me virei. Havia uma luz diferente em seus olhos, um tipo flamejante de orgulho. – Você se saiu bem, Perseu. Não me entenda mal. O que quer que ainda faça, saiba que você é meu. Você é um verdadeiro filho do Deus do Mar.
Enquanto eu caminhava de volta pela cidade dos deuses, as conversas se interromperam. As musas pararam seu concerto. Pessoas, sátiros e náiades, todos se voltavam para mim, os rostos plenos de respeito e gratidão, e quando eu passava eles se ajoelhavam, como se eu fosse algum tipo de herói.
Quinze minutos depois, ainda em transe, eu estava de volta às ruas de Manhattan. Peguei um táxi para o apartamento da minha mãe, toquei a campainha, e lá estava ela – minha linda mãe, cheirando a hortelã e alcaçuz, e o cansaço e a preocupação se evaporaram do seu rosto assim que ela me viu. – Percy! Oh, graças a Deus! Oh, meu querido.
Ela me apertou até não poder mais. Ficamos no vestíbulo enquanto ela chorava e passava as mãos pelos meus cabelos. Eu admito – meus olhos também ficaram um pouco nublados. Eu tremia, de tão aliviado que estava por vê-la. Ela me contou que simplesmente aparecera no apartamento naquela manhã, deixando Gabe meio fora de si de tão apavorado. Não se lembrava de nada desde o Minotauro, e não pôde acreditar quando Gabe lhe disse que eu era um criminoso procurado, viajando pelo país e explodindo monumentos nacionais. Ficara louca de preocupação o dia inteiro porque não ouvira as notícias. Gabe a forçara a ir trabalhar, dizendo que ela precisava um mês de salário para compensar, e era melhor começar. Engoli a raiva e contei-lhe minha própria história. Tentei fazer que parecesse menos apavorante do que fora, mas não era fácil. Estava justamente chegando à luta com Ares quando a voz de Gabe irrompeu da sala de estar.
– Ei, Sally! Aquele bolo de carne já está pronto ou não?
Ela fechou os olhos.
– Ele não vai ficar muito feliz em vê-lo, Percy. A loja recebeu um milhão de telefonemas de Los Angeles hoje... alguma coisa sobre eletrodomésticos grátis. – Ah, sim. Quanto a isso...
Ela conseguiu sorrir fracamente.
– Só não o deixe ainda mais zangado, certo? Venha.
No mês em que estive fora, o apartamento se transformara em Gabelândia. Havia lixo no tapete até a altura dos tornozelos. O sofá tinha sido estofado de novo com latas de cerveja. Meias e roupas de baixo sujas estavam penduradas nos abajures. Gabe e três dos seus amigos cretinos estavam sentados à mesa jogando pôquer. Quando Gabe me viu, o charuto caiu da boca. A cara dele ficou mais vermelha que lava.
– Você é muito descarado de vir aqui, seu pequeno punk. Eu pensei que a polícia...
– Ele não é um fugitivo, afinal – interrompeu minha mãe. – Não é maravilhoso, Gabe?
Gabe olhou para um lado e para outro entre nós. Não parecia achar que a minha volta para casa fosse assim tão maravilhosa.
– Já não basta ter de devolver o dinheiro do seu seguro de vida, Sally – rosnou ele. – Me dê o telefone. Vou chamar a polícia.
– Gabe, não!
Ele ergueu as sobrancelhas.
– Você disse não! Acha que eu vou ter de aguentar esse punk de novo? Ainda posso registrar queixa contra ele por destruir o meu Camaro.
– Mas...
Ele levantou a mão e minha mãe se encolheu. Pela primeira vez me dei conta de uma coisa. Gabe já tinha batido na minha mãe. Não sei quando, nem quanto. Talvez estivesse acontecendo há anos, quando eu não estava por perto. Um balão de raiva começou a se expandir no meu peito. Avencei para Gabe, instintivamente tirando minha caneta do bolso. Ele apenas riu.
– O que foi, punk? Vai escrever em mim? Encoste em mim, e irá para a cadeia para sempre, entendeu?
– Ei, Gabe – seu amigo Eddie interrompeu. – Ele é só uma criança.
Gabe olhou para ele irritado e macaqueou em voz de falsete:
– Ele é só uma criança! – Seus outros amigos riram como idiotas. – Eu vou ser bonzinho com você, punk. – Gabe mostrou os dentes manchados de tabaco. – Vou lhe dar cinco minutos para pegar suas coisas e dar o fora. Depois disso, chamo a polícia.
– Gabe! – implorou minha mãe.
– Ele fugiu – disse Gabe a ela. – Que continue fugido.
Eu estava sentindo uma comichão para destampar Contracorrente, mas mesmo que fizesse isso, a lâmina não podia ferir seres humanos. E Gabe, segundo a mais vaga das definições, era um ser humano. Minha mãe segurou meu braço.
– Por favor, Percy. Venha. Vamos para o seu quarto.
Deixei que ela me puxasse, as mãos ainda tremendo de raiva. Meu quarto tinha sido completamente abarrotado com o lixo de Gabe. Havia pilhas de baterias velhas de carro, um buquê apodrecido de flores de solidariedade com um cartão de alguém que assistira sua entrevista com Barbara Walters.
– Gabe está apenas chateado, querido – disse minha mãe. – Vou falar com ele mais tarde. Tenho certeza de que vai dar certo.
– Mamãe, nunca vai dar certo. Não enquanto Gabe estiver aqui.
Ela torceu as mãos nervosamente.
– Eu posso... vou levar você comigo para o trabalho durante o resto do verão. No outono talvez haja algum outro internato...
– Mamãe.
Ela baixou os olhos.
– Estou tentando, Percy. Eu só... só preciso de algum tempo.
Um pacote apareceu em cima da minha cama. Pelo menos, eu poderia jurar que não estava lá um momento antes. Era uma caixa de papelão surrada mais ou menos do tamanho certo para conter uma bola de basquete. O endereço na etiqueta estava na minha própria caligrafia:
Aos deuses
Monte Olimpo, 600° andar
Edifício Empire State
Nova York, NY
Com os melhores votos, Percy Jackson
No topo da caixa, em marcador preto, na caligrafia clara e forte de um homem, estava o endereço do nosso apartamento, e as palavras: RETORNAR AO REMETENTE. De repente entendi o que Poseidon me dissera no Olimpo. Um pacote. Uma decisão. O que quer que ainda faça, saiba que você é meu. Você é um verdadeiro filho do Deus do Mar. Olhei para a minha mãe.
– Mãe, você quer se livrar do Gabe?
– Percy, não é tão simples. Eu...
– Mãe, apenas me diga. Aquele cretino está batendo em você. Você quer que ele se vá ou não?
Ela hesitou, depois assentiu quase imperceptivelmente.
– Sim, Percy. Eu quero. E estou tentando reunir coragem para dizer a ele. Mas você não pode fazer isso por mim. Você não pode resolver os meus problemas.
Eu olhei para a caixa. Eu podia resolver o problema dela. Queria abrir aquele pacote, botá-lo sobre a mesa de pôquer e tirar o que havia dentro. Podia começar o meu próprio jardim de estátuas bem ali na sala de estar. E o que um herói grego faria nas histórias, pensei. É o que Gabe merece. Mas a história de um herói sempre termina em tragédia. Poseidon me dissera isso. Lembrei-me do Mundo Inferior. Pensei no espírito de Gabe à deriva nos Campos de Asfódelos, ou condenado a alguma tortura horrível atrás do arame farpado dos Campos da Punição – sentado em um eterno jogo de pôquer, mergulhado até a cintura em óleo fervente ou ouvindo música de ópera. Será que eu tinha o direito de mandar alguém para lá? Mesmo Gabe? Um mês atrás, eu não teria hesitado. Agora...
– Eu posso fazer isso – disse à minha mãe. – Uma espiada para o que há dentro desta caixa, e ele nunca mais a incomodará de novo.
Ela deu uma olhada para o pacote e pareceu entender imediatamente.
– Não, Percy – disse ela afastando-se. – Você não pode.
– Poseidon chamou você de rainha – contei-lhe. – Ele disse que não conheceu nenhuma mulher como você em mil anos.
Suas faces coraram.
– Percy...
– Você merece coisa melhor do que isso, mãe. Você devia ir para a faculdade, tirar o seu diploma. Podia escrever o seu romance, conhecer um cara legal, quem sabe, e viver numa bela casa. Você não precisa mais me proteger ficando com Gabe, Deixe que eu me livre dele.
Ela enxugou uma lágrima do rosto.
– Você se parece tanto com o seu pai – disse ela. – Uma vez propôs parar a maré por mim. Propôs construir um palácio para mim no fundo do mar, achava que podia resolver todos os meus problemas com um aceno de mão.
– O que há de errado nisso?
Seus olhos multicoloridos pareceram investigar dentro de mim.
– Eu acho que você sabe, Percy, Eu acho que você é parecido o bastante comigo para entender. Se é para a minha vida ter algum significado, tenho de vivê-la eu mesma. Não posso deixar que um deus cuide de mim... ou meu filho, Eu preciso... encontrar a coragem sozinha, a sua missão me fez lembrar disso.
Ouvimos o som das fichas de pôquer e pragas, e a ESPN na televisão da sala de estar.
– Vou deixar a caixa – disse eu – se ele a ameaçar...
Ela empalideceu, mas assentiu.
– Aonde você vai, Percy?
– Colina Meio-Sangue.
– Passar o verão... ou para sempre?
– Ainda não sei.
Nossos olhos se encontraram, e eu senti que tínhamos um acordo. Veríamos como estariam as coisas no fim do verão. Ele beijou a minha testa.
– Você será um herói, Percy, o maior de todos. Passei os olhos pelo quarto pela última vez, tinha a sensação de que nunca mais o veria de novo. Então fui com minha mãe até a porta da frente.
– Indo embora tão cedo, punk? – gritou Gabe atrás de mim. – Já vai tarde!
Senti uma última ponta de dúvida. Como eu podia rejeitar a oportunidade perfeita para me vingar dele? Eu estava indo embora daqui sem salvar a minha mãe.
– Ei, Sally! – berrou ele. – E aquele bolo de carne, hein? Uma expressão de raiva, dura como aço, brilhou nos olhos da minha mãe, e eu pensei, quem sabe, talvez eu a estivesse deixando em boas mãos afinal: as dela mesma.
– O bolo de carne já está saindo, meu bem – disse ela a Gabe. – Um bolo de carne surpresa.
Olhou para mim e piscou. A última coisa que vi quando a porta se fechou foi minha mãe olhando para Gabe com jeito de quem imagina que ele daria uma ótima estátua de jardim.
– Tudo o que eu quero – disse eu, contendo as lágrimas – é ver o meu adorado padrasto de novo. Toda vez que o via na tevê me chamando de punk delinquente, eu sabia... de algum modo... que tudo ia dar certo. E eu sei que ele vai querer recompensar uma por uma todas as pessoas desta linda cidade de Los Angeles com um eletrodoméstico grátis, dos grandes, da sua loja. Aqui está o número do telefone.
A polícia e os repórteres ficaram tão comovidos que passaram o chapéu e levantaram dinheiro para três passagens no próximo avião para Nova York. Eu sabia que não havia escolha senão voar. Esperava que Zeus me desse algum tempo de lambuja, consideradas as circunstâncias. Mas ainda assim foi difícil me forçar a embarcar no voo. A decolagem foi um pesadelo. Cada momento de turbulência era mais assustador que um monstro grego. Eu não larguei dos braços da poltrona até pousarmos em segurança no aeroporto de La Guardia. A imprensa local aguardava por nós do lado de fora da segurança, mas conseguimos escapar graças a Annabeth, que atraiu para longe com o seu boné dos Yankees invisível, gritando:
– Eles estão lá, perto da sorveteria! Venham! e depois juntou a nós na área de retirada de bagagem. Separamo-nos no ponto de táxi. Eu disse a Annabeth e Grover para voltar à Colina Meio-Sangue e contar a Quíron o que acontecera. Eles protestaram, e era difícil deixá-los partir depois de tudo que passamos juntos, mas eu sabia que tinha de cumprir essa última parte da minha missão sozinho. Se as coisas dessem errado, se os deuses não acreditassem em mim... eu queria que Annabeth e Grover sobrevivessem para contar a verdade a Quíron. Embarquei em um táxi e segui para Manhattan.
Trinta minutos depois, entrei no saguão do Edifício Empire State. Devo ter parecido uma criança abandonada, com minhas roupas esfarrapadas e minha cara toda arranhada. Eu não dormia havia pelo menos vinte e quatro horas.
Fui até o guarda na mesa da recepção e disse:
– Seiscentésimo andar.
Ele estava lendo um livro enorme com a figura de um feiticeiro na capa. Eu não curto muito fantasia, mas acho que o livro era bom, porque o guarda levou algum tempo para erguer os olhos.
– Esse andar não existe, garoto.
– Eu preciso de uma audiência com Zeus. – Ele me deu um sorriso vago. – O quê?
– Você me ouviu.
Eu já estava quase concluindo que aquele cara era apenas um mortal comum, e era melhor eu correr antes que ele chamasse a patrulha da camisa de força, quando ele disse:
– Sem hora marcada, nada de audiência, garoto. O Senhor Zeus não atende ninguém sem aviso prévio.
– Ah, eu acho que ele vai abrir uma exceção.
Tirei a mochila das costas e abri o zíper. O guarda olhou para o cilindro metálico lá dentro sem entender o que era por alguns segundos. Então seu rosto empalideceu.
– Isto não é...
– Sim, é – garanti. – Você quer que eu o tire e...
– Não! Não!
Ele se ergueu atabalhoadamente da sua cadeira, tateou em volta da mesa procurando um cartão-chave, e o entregou para mim.
– Insira na fenda de segurança. Certifique-se de que ninguém mais esteja no elevador com você.
Fiz o que ele me disse. Assim que as portas do elevador se fecharam, enfiei o cartão na fenda. O cartão desapareceu e um novo botão apareceu no quadro, um botão vermelho que dizia 600. Apertei e esperei, e esperei. Havia música tocando. "Raindrops keepfalling on my head..." Finalmente, plim. As portas se abriram. Saí e quase tive um ataque do coração. Eu estava em um estreito caminho de pedra no meio do ar. Abaixo de mim se encontrava Manhattan, da altura de um avião.
Diante de mim, degraus de mármore branco subiam em espiral pelo meio de uma nuvem até o céu. Meus olhos seguiram a escada até o fim, onde meu cérebro simplesmente não pôde aceitar o que vi. Olhem outra vez, disse meu cérebro. Estamos olhando, meus olhos insistiram. Está realmente lá. Do topo das nuvens se erguia o pico decapitado de uma montanha, o cume coberto de neve. Na encosta da montanha havia dúzias de palácios com vários níveis – uma cidade de mansões – todos com pórticos de colunas brancas, terraços dourados e braseiros de bronze brilhando com mil fogos. Estradas se enroscavam de um jeito maluco até o pico, onde o maior dos palácios resplandecia contra a neve. Jardins precariamente encarapitados floresciam com oliveiras e roseiras. Pude distinguir um mercado a céu aberto cheio de tendas coloridas, um anfiteatro de pedra construído em um lado da montanha, um hipódromo e um coliseu do outro. Era uma cidade grega antiga, só que não estava em ruínas. Era nova, limpa e colorida, como Atenas deve ter sido há dois mil e quinhentos anos.
Este palácio não pode estar aqui, disse para mim mesmo. A ponta de uma montanha pendurada em cima da cidade de Nova York como um asteroide de um bilhão de toneladas? Como podia uma coisa assim estar ancorada acima do Edifício Empire State a plena vista de milhões de pessoas, e não ser notada? Mas aqui estava. E aqui estava eu. Minha viagem pelo Olimpo foi deslumbrante. Passei por algumas ninfas das florestas que deram risadinhas e me atiraram azeitonas do seu pomar. No mercado, mascates se ofereceram para vender ambrosia-no-palito, um escudo novo e uma réplica genuína do Velocino de Ouro em tecido cintilante, conforme anunciado na tevê Hefesto. As nove musas afinavam seus instrumentos para um concerto no parque enquanto uma pequena multidão se reunia – sátiros, náiades e um bando de adolescentes de boa aparência que talvez fossem deuses e deusas menores.
Ninguém parecia preocupado com uma guerra civil iminente. De fato, todo mundo parecia estar num estado de ânimo festivo. Vários se voltaram para me ver passar e cochicharam entre si. Subi pela estrada principal rumo ao grande palácio no pico. Era uma cópia invertida do palácio no Mundo Inferior. Lá, tudo era preto e bronze. Aqui, tudo rebrilhava em branco e prata. Dei-me conta de que Hades deve ter construído o seu palácio para se parecer com este. Ele não era bem-vindo no Olimpo, exceto no solstício de inverno, então construiu seu próprio Olimpo embaixo da terra. A despeito da minha má experiência com ele, senti pena do cara. Ser banido deste palácio parecia realmente injusto. Era de deixar qualquer um amargo. Degraus levavam a um pátio central. Além dele, a sala do trono. Sala não é exatamente a palavra certa. O lugar fazia a Grande Estação Central parecer um armário de vassouras. Colunas maciças se erguiam até um teto abobadado, que era decorado com constelações que se moviam. Doze tronos, construídos para seres do tamanho de Hades, estavam arrumados em um U invertido, exatamente como os chalés do Acampamento Meio-Sangue. Uma enorme fogueira crepitava no braseiro central. Os tronos estavam vazios com exceção de dois no fim: o trono principal à direita e um imediatamente à sua esquerda. Ninguém precisou me dizer quem eram os dois deuses que estavam sentados lá, esperando que eu me aproximasse. Cheguei à frente deles com as pernas tremendo. Os deuses estavam em forma humana gigante, como Hades estivera, mas eu mal podia olhar para eles sem sentir um formigamento, como se o meu corpo estivesse começando a queimar. Zeus, o Senhor dos Deuses, usava um terno risca-de-giz azul-escuro. Estava sentado em um trono simples de platina maciça. Tinha uma barba bem aparada, cinza-mármore e preta, como uma nuvem de tempestade. Seu rosto era orgulhoso belo e severo, os olhos tinham o tom cinzento da chuva. Quando me aproximei dele, o ar estralou e senti cheiro de ozônio. O deus sentado ao lado dele era seu irmão, sem dúvida, mas estava vestido de modo muito diferente. Lembrou-me um catador de praia de Key West. Usava sandálias de couro, bermudas caqui e uma camisa marca Tommy Bahama toda estampada de coqueiros e papagaios. Sua pele tinha um bronzeado escuro e as mãos eram marcadas de cicatrizes como as de um velho pescador. O cabelo era preto, como o meu. Seu rosto tinha o mesmo ar taciturno que sempre me fez ser rotulado de rebelde. Mas os olhos, verde-mar como os meus, eram rodeados de rugas que me diziam que ele também sorria muito. Os deuses não estavam se movendo nem falando, mas havia tensão no ar, como se tivessem acabado de discutir. Aproximei-me do trono do pescador e me ajoelhei aos seus pés.
– Pai.
Não ousei olhar para cima. Meu coração estava disparado, eu podia sentir a energia que emanava dos dois deuses. Se eu dissesse a coisa errada, não havia dúvida de que eles poderiam me reduzir a pó. A minha esquerda, Zeus falou:
– Você não deveria se dirigir primeiro ao senhor desta casa, menino? – Mantive a cabeça baixa e esperei.
– Paz, irmão – disse por fim Poseidon. Sua voz mexeu com as minhas lembranças mais antigas: aquela sensação morna de que me lembrava, de quando eu era bebê, a sensação da sua mão de deus sobre a minha testa. – O menino submete-se ao seu pai. Está certo.
– Então você ainda o reclama como seu? – perguntou Zeus, ameaçadoramente. – Você reclama esta criança que procriou contrariando o nosso sagrado juramento?
– Eu admiti a minha transgressão – disse Poseidon. – E agora vou ouvi-lo falar.
Transgressão. Senti um nó na garganta. Era isso tudo o que eu era? Uma transgressão? O resultado do erro de um deus?
– Eu já o poupei uma vez – resmungou Zeus. – Ousando voar através dos meus domínios... bah! Eu devia tê-lo mandado pelos ares, para fora do céu pelo seu atrevimento.
– E correr o risco de destruir seu próprio raio-mestre? – perguntou Poseidon calmamente. – Vamos ouvi-lo, irmão.
Zeus resmungou mais um pouco.
– Ouvirei – resolveu. – E então decidirei se atirarei ou não este menino para fora do Olimpo.
– Perseu – disse Poseidon. – Olhe para mim.
Fiz isso, e não sei ao certo o que vi no seu rosto. Não havia sinal claro de amor ou aprovação. Nada para me encorajar. Era como olhar para o oceano: em alguns dias, era possível dizer como estava o seu humor. Na maioria dos dias, no entanto, era impossível de ler, misterioso. Tive a sensação de que Poseidon na verdade não sabia o que pensar de mim. Não sabia se estava feliz por ter-me como filho ou não. De um modo estranho, eu estava contente por Poseidon estar tão distante. Se ele tivesse tentado se desculpar, ou dito que me amava, ou mesmo sorrido, teria parecido falso. Como um pai humano, dando alguma desculpa pouco convincente por não estar presente. Eu poderia viver com isso. Afinal, eu mesmo também não estava muito seguro a respeito dele.
– Dirija-se ao Senhor Zeus, menino – disse-me Poseidon. – Conte a ele a sua história.
Então contei tudo a Zeus, exatamente como havia acontecido. Tirei da mochila o cilindro de metal, que começou a fagulhar na presença do Deus do Céu, e o pus aos seus pés. Houve um longo silêncio, quebrado apenas pelo crepitar do fogo no braseiro.
Zeus abriu a palma da sua mão. O raio voou para dentro dela. Quando ele fechou o punho, os pontos metálicos fulguraram com eletricidade, até ele ficar segurando o que parecia mais um relâmpago clássico, um dardo de seis metros feito de energia com centelhas chiantes que fez os meus cabelos se eriçarem.
– Sinto que o menino diz a verdade – murmurou Zeus. – Mas não é nada típico de Ares fazer uma coisa assim.
– Ele é orgulhoso e impulsivo – disse Poseidon. – É coisa de família.
– Senhor? – chamei. Ambos disseram:
– Sim?
– Ares não agiu sozinho. Outra pessoa – ou outra coisa teve a ideia.
Descrevi os meus sonhos e a sensação que tive na praia, o momentâneo hálito do mal que parecera parar o mundo e fizera Ares desistir de me matar.
– Nos meus sonhos – disse eu – a voz me disse para levar o raio ao Mundo Inferior. Ares insinuou que também estava tendo sonhos. Acho que ele estava sendo usado, assim como eu, para começar uma guerra.
– Você está acusando Hades, afinal? – perguntou Zeus.
– Não – disse eu. – Quer dizer, Senhor Zeus, eu estive na presença de Hades. A sensação na praia foi diferente. Era a mesma coisa que senti quando cheguei perto daquele abismo. Aquela era entrada para o Tártaro, não era? Alguma coisa poderosa e maligna está se agitando lá embaixo... alguma coisa ainda mais antiga que os deuses.
Poseidon e Zeus se entreolharam. Eles tiveram uma rápida e intensa discussão em grego antigo. Só peguei uma palavra. Pai. Poseidon fez algum tipo de sugestão, mas Zeus o cortou. Poseidon tentou discutir. Zeus ergueu a mão, zangado.
– Não vamos mais falar disso – disse Zeus. – Preciso ir pessoalmente purificar este raio nas águas de Lemnos, para remover a mácula humana do seu metal. – Ele se levantou e olhou para mim. Sua expressão se suavizou uma fração de um grau. – Você me prestou um serviço, menino. Poucos heróis poderiam ter conseguido tanto.
– Eu tive ajuda, senhor – disse eu. – Grover Underwood e Annabeth Chase...
– Para demonstrar minha gratidão, pouparei sua vida. Não confio em você, Perseu Jackson. Não gosto do que a sua chegada significa para o futuro do Olimpo. Mas, em nome da paz na família, eu o deixarei viver.
– Ahn... obrigado, senhor.
– Não ouse voar de novo. Não me deixe encontrá-lo aqui quando eu voltar. Ou irá provar este raio. E será a sua última sensação.
Um trovão sacudiu o palácio. Com um clarão ofuscante, Zeus se foi. Eu estava sozinho na sala do trono com meu pai.
– O seu tio – suspirou Poseidon – sempre teve um talento especial para saídas teatrais. Acho que ele teria se saído bem como o deus do teatro.
Um silêncio constrangedor.
– Senhor – disse eu – o que havia naquele abismo?
Poseidon olhou atentamente para mim.
– Você não adivinhou?
– Cronos – disse eu. – O rei dos Titãs.
Mesmo na sala do trono do Olimpo, longe do Tártaro, o nome Cronos escureceu o ambiente, e fez o fogo no braseiro não parecer mais tão quente nas minhas costas. Poseidon segurou o seu tridente.
– Na Primeira Guerra Mundial, Percy, Zeus cortou o nosso pai Cronos em mil pedaços, exatamente como Cronos fizera com seu próprio pai, Urano. Zeus lançou os restos de Cronos no mais escuro abismo do Tártaro. O exército dos Titãs foi dispersado, sua fortaleza na montanha sobre o Etna, destruída, seus monstruosos aliados foram expulsos para os cantos mais distantes da Terra. E, contudo, Titãs não podem morrer, não mais que nós, deuses. O que resta de Cronos ainda vive de algum modo hediondo, ainda consciente em seu sofrimento eterno, ainda com fome de poder.
– Ele está se curando – disse eu. – Ele vai voltar.
Poseidon sacudiu a cabeça.
– De tempos em tempos, no decorrer das eras, Cronos se agita. Ele entra nos pesadelos dos homens e exala pensamentos malignos. Desperta monstros inquietos das profundezas. Mas sugerir que ele pode erguer-se do abismo é outra coisa.
– É o que ele pretende, pai. É o que ele disse.
Poseidon ficou em silêncio por um bom tempo.
– O Senhor Zeus encerrou a discussão sobre o assunto. Ele não permitirá que se fale de Cronos. Você completou a sua missão, criança. É tudo o que precisa fazer.
– Mas... – eu me interrompi. Discutir não iria adiantar nada. Muito possivelmente, irritaria o único deus que eu tinha do meu lado. – Como... como queira, pai.
Um leve sorriso brincou nos lábios dele.
– A obediência não lhe vem naturalmente, não é?
– Não... senhor.
– Devo ter alguma culpa por isso, imagino. O mar não gosta de ser contido. – Ele se ergueu em toda a sua altura e pegou seu tridente. Então tremeluziu e ficou do tamanho de um homem normal, em pé diante de mim. – Você precisa ir, criança. Mas primeiro saiba que sua mãe retornou.
Olhei para ele, completamente perplexo.
– Minha mãe?
– Você a encontrará em casa. Hades a enviou quando recuperou seu elmo. Até mesmo o Senhor da Morte paga as suas dívidas.
Meu coração disparou. Eu mal podia acreditar.
– Você... você vai...
Eu queria perguntar se Poseidon viria comigo para vê-la, mas então percebi que isso era ridículo. Imaginei-me embarcando com o Deus do Mar em um táxi e levando-o para o Upper East Side. Se durante todos aqueles anos ele tivesse desejado ver minha mãe, teria visto. E também era preciso pensar que Gabe Cheiroso estava lá. Os olhos de Poseidon ficaram um pouco tristes.
– Quando você voltar para casa, Percy, precisará fazer uma escolha importante. Irá encontrar um pacote esperando por você no seu quarto.
– Um pacote?
– Você entenderá quando o vir. Ninguém pode escolher o seu caminho, Percy. Você terá de decidir.
Assenti, embora sem saber o que ele queria dizer.
– Sua mãe é uma rainha entre as mulheres – disse Poseidon saudosamente. – Não conheci nenhuma mulher mortal como ela em mil anos. Ainda assim... sinto muito por você ter nascido, criança. Eu trouxe para você um destino de herói, e um destino de herói nunca é feliz. Não passa de um destino trágico.
Tentei não me sentir magoado. Ali estava o meu próprio pai, dizendo que sentia muito por eu ter nascido.
– Eu não me importo, pai.
– Ainda não, talvez – disse ele. – Ainda não. Mas foi um erro imperdoável da minha parte.
– Vou deixá-lo, então. – Eu me inclinei, desajeitado. – Não... não vou incomodá-lo de novo.
Eu estava a cinco passos de distância quando ele chamou:
– Perseu. – Eu me virei. Havia uma luz diferente em seus olhos, um tipo flamejante de orgulho. – Você se saiu bem, Perseu. Não me entenda mal. O que quer que ainda faça, saiba que você é meu. Você é um verdadeiro filho do Deus do Mar.
Enquanto eu caminhava de volta pela cidade dos deuses, as conversas se interromperam. As musas pararam seu concerto. Pessoas, sátiros e náiades, todos se voltavam para mim, os rostos plenos de respeito e gratidão, e quando eu passava eles se ajoelhavam, como se eu fosse algum tipo de herói.
Quinze minutos depois, ainda em transe, eu estava de volta às ruas de Manhattan. Peguei um táxi para o apartamento da minha mãe, toquei a campainha, e lá estava ela – minha linda mãe, cheirando a hortelã e alcaçuz, e o cansaço e a preocupação se evaporaram do seu rosto assim que ela me viu. – Percy! Oh, graças a Deus! Oh, meu querido.
Ela me apertou até não poder mais. Ficamos no vestíbulo enquanto ela chorava e passava as mãos pelos meus cabelos. Eu admito – meus olhos também ficaram um pouco nublados. Eu tremia, de tão aliviado que estava por vê-la. Ela me contou que simplesmente aparecera no apartamento naquela manhã, deixando Gabe meio fora de si de tão apavorado. Não se lembrava de nada desde o Minotauro, e não pôde acreditar quando Gabe lhe disse que eu era um criminoso procurado, viajando pelo país e explodindo monumentos nacionais. Ficara louca de preocupação o dia inteiro porque não ouvira as notícias. Gabe a forçara a ir trabalhar, dizendo que ela precisava um mês de salário para compensar, e era melhor começar. Engoli a raiva e contei-lhe minha própria história. Tentei fazer que parecesse menos apavorante do que fora, mas não era fácil. Estava justamente chegando à luta com Ares quando a voz de Gabe irrompeu da sala de estar.
– Ei, Sally! Aquele bolo de carne já está pronto ou não?
Ela fechou os olhos.
– Ele não vai ficar muito feliz em vê-lo, Percy. A loja recebeu um milhão de telefonemas de Los Angeles hoje... alguma coisa sobre eletrodomésticos grátis. – Ah, sim. Quanto a isso...
Ela conseguiu sorrir fracamente.
– Só não o deixe ainda mais zangado, certo? Venha.
No mês em que estive fora, o apartamento se transformara em Gabelândia. Havia lixo no tapete até a altura dos tornozelos. O sofá tinha sido estofado de novo com latas de cerveja. Meias e roupas de baixo sujas estavam penduradas nos abajures. Gabe e três dos seus amigos cretinos estavam sentados à mesa jogando pôquer. Quando Gabe me viu, o charuto caiu da boca. A cara dele ficou mais vermelha que lava.
– Você é muito descarado de vir aqui, seu pequeno punk. Eu pensei que a polícia...
– Ele não é um fugitivo, afinal – interrompeu minha mãe. – Não é maravilhoso, Gabe?
Gabe olhou para um lado e para outro entre nós. Não parecia achar que a minha volta para casa fosse assim tão maravilhosa.
– Já não basta ter de devolver o dinheiro do seu seguro de vida, Sally – rosnou ele. – Me dê o telefone. Vou chamar a polícia.
– Gabe, não!
Ele ergueu as sobrancelhas.
– Você disse não! Acha que eu vou ter de aguentar esse punk de novo? Ainda posso registrar queixa contra ele por destruir o meu Camaro.
– Mas...
Ele levantou a mão e minha mãe se encolheu. Pela primeira vez me dei conta de uma coisa. Gabe já tinha batido na minha mãe. Não sei quando, nem quanto. Talvez estivesse acontecendo há anos, quando eu não estava por perto. Um balão de raiva começou a se expandir no meu peito. Avencei para Gabe, instintivamente tirando minha caneta do bolso. Ele apenas riu.
– O que foi, punk? Vai escrever em mim? Encoste em mim, e irá para a cadeia para sempre, entendeu?
– Ei, Gabe – seu amigo Eddie interrompeu. – Ele é só uma criança.
Gabe olhou para ele irritado e macaqueou em voz de falsete:
– Ele é só uma criança! – Seus outros amigos riram como idiotas. – Eu vou ser bonzinho com você, punk. – Gabe mostrou os dentes manchados de tabaco. – Vou lhe dar cinco minutos para pegar suas coisas e dar o fora. Depois disso, chamo a polícia.
– Gabe! – implorou minha mãe.
– Ele fugiu – disse Gabe a ela. – Que continue fugido.
Eu estava sentindo uma comichão para destampar Contracorrente, mas mesmo que fizesse isso, a lâmina não podia ferir seres humanos. E Gabe, segundo a mais vaga das definições, era um ser humano. Minha mãe segurou meu braço.
– Por favor, Percy. Venha. Vamos para o seu quarto.
Deixei que ela me puxasse, as mãos ainda tremendo de raiva. Meu quarto tinha sido completamente abarrotado com o lixo de Gabe. Havia pilhas de baterias velhas de carro, um buquê apodrecido de flores de solidariedade com um cartão de alguém que assistira sua entrevista com Barbara Walters.
– Gabe está apenas chateado, querido – disse minha mãe. – Vou falar com ele mais tarde. Tenho certeza de que vai dar certo.
– Mamãe, nunca vai dar certo. Não enquanto Gabe estiver aqui.
Ela torceu as mãos nervosamente.
– Eu posso... vou levar você comigo para o trabalho durante o resto do verão. No outono talvez haja algum outro internato...
– Mamãe.
Ela baixou os olhos.
– Estou tentando, Percy. Eu só... só preciso de algum tempo.
Um pacote apareceu em cima da minha cama. Pelo menos, eu poderia jurar que não estava lá um momento antes. Era uma caixa de papelão surrada mais ou menos do tamanho certo para conter uma bola de basquete. O endereço na etiqueta estava na minha própria caligrafia:
Aos deuses
Monte Olimpo, 600° andar
Edifício Empire State
Nova York, NY
Com os melhores votos, Percy Jackson
No topo da caixa, em marcador preto, na caligrafia clara e forte de um homem, estava o endereço do nosso apartamento, e as palavras: RETORNAR AO REMETENTE. De repente entendi o que Poseidon me dissera no Olimpo. Um pacote. Uma decisão. O que quer que ainda faça, saiba que você é meu. Você é um verdadeiro filho do Deus do Mar. Olhei para a minha mãe.
– Mãe, você quer se livrar do Gabe?
– Percy, não é tão simples. Eu...
– Mãe, apenas me diga. Aquele cretino está batendo em você. Você quer que ele se vá ou não?
Ela hesitou, depois assentiu quase imperceptivelmente.
– Sim, Percy. Eu quero. E estou tentando reunir coragem para dizer a ele. Mas você não pode fazer isso por mim. Você não pode resolver os meus problemas.
Eu olhei para a caixa. Eu podia resolver o problema dela. Queria abrir aquele pacote, botá-lo sobre a mesa de pôquer e tirar o que havia dentro. Podia começar o meu próprio jardim de estátuas bem ali na sala de estar. E o que um herói grego faria nas histórias, pensei. É o que Gabe merece. Mas a história de um herói sempre termina em tragédia. Poseidon me dissera isso. Lembrei-me do Mundo Inferior. Pensei no espírito de Gabe à deriva nos Campos de Asfódelos, ou condenado a alguma tortura horrível atrás do arame farpado dos Campos da Punição – sentado em um eterno jogo de pôquer, mergulhado até a cintura em óleo fervente ou ouvindo música de ópera. Será que eu tinha o direito de mandar alguém para lá? Mesmo Gabe? Um mês atrás, eu não teria hesitado. Agora...
– Eu posso fazer isso – disse à minha mãe. – Uma espiada para o que há dentro desta caixa, e ele nunca mais a incomodará de novo.
Ela deu uma olhada para o pacote e pareceu entender imediatamente.
– Não, Percy – disse ela afastando-se. – Você não pode.
– Poseidon chamou você de rainha – contei-lhe. – Ele disse que não conheceu nenhuma mulher como você em mil anos.
Suas faces coraram.
– Percy...
– Você merece coisa melhor do que isso, mãe. Você devia ir para a faculdade, tirar o seu diploma. Podia escrever o seu romance, conhecer um cara legal, quem sabe, e viver numa bela casa. Você não precisa mais me proteger ficando com Gabe, Deixe que eu me livre dele.
Ela enxugou uma lágrima do rosto.
– Você se parece tanto com o seu pai – disse ela. – Uma vez propôs parar a maré por mim. Propôs construir um palácio para mim no fundo do mar, achava que podia resolver todos os meus problemas com um aceno de mão.
– O que há de errado nisso?
Seus olhos multicoloridos pareceram investigar dentro de mim.
– Eu acho que você sabe, Percy, Eu acho que você é parecido o bastante comigo para entender. Se é para a minha vida ter algum significado, tenho de vivê-la eu mesma. Não posso deixar que um deus cuide de mim... ou meu filho, Eu preciso... encontrar a coragem sozinha, a sua missão me fez lembrar disso.
Ouvimos o som das fichas de pôquer e pragas, e a ESPN na televisão da sala de estar.
– Vou deixar a caixa – disse eu – se ele a ameaçar...
Ela empalideceu, mas assentiu.
– Aonde você vai, Percy?
– Colina Meio-Sangue.
– Passar o verão... ou para sempre?
– Ainda não sei.
Nossos olhos se encontraram, e eu senti que tínhamos um acordo. Veríamos como estariam as coisas no fim do verão. Ele beijou a minha testa.
– Você será um herói, Percy, o maior de todos. Passei os olhos pelo quarto pela última vez, tinha a sensação de que nunca mais o veria de novo. Então fui com minha mãe até a porta da frente.
– Indo embora tão cedo, punk? – gritou Gabe atrás de mim. – Já vai tarde!
Senti uma última ponta de dúvida. Como eu podia rejeitar a oportunidade perfeita para me vingar dele? Eu estava indo embora daqui sem salvar a minha mãe.
– Ei, Sally! – berrou ele. – E aquele bolo de carne, hein? Uma expressão de raiva, dura como aço, brilhou nos olhos da minha mãe, e eu pensei, quem sabe, talvez eu a estivesse deixando em boas mãos afinal: as dela mesma.
– O bolo de carne já está saindo, meu bem – disse ela a Gabe. – Um bolo de carne surpresa.
Olhou para mim e piscou. A última coisa que vi quando a porta se fechou foi minha mãe olhando para Gabe com jeito de quem imagina que ele daria uma ótima estátua de jardim.
Capítulo 20
A luta contra o meu parente imbecil
Um barco da Guarda Costeira nos recolheu, mas eles estavam ocupados demais para ficar conosco por muito tempo, ou para querer saber por que três crianças com roupas casuais foram parar no meio da baía. Havia um desastre para cuidar. Seus rádios estavam entupidos de chamados de emergência. Eles nos largaram no píer Santa Monica com toalhas em volta dos ombros e garrafas d'água que diziam EU SOU UM GUARDA-COSTEIRO MIRIM! e saíram às pressas para salvar mais gente. Nossas roupas estavam encharcadas, inclusive as minhas. Quando o barco da Guarda Costeira apareceu, eu implorei baixinho que eles não me tirassem da água e me achassem perfeitamente seco, o que teria feito algumas sobrancelhas se erguerem. Então desejei ficar encharcado. Sem dúvida, minha mágica à prova d'água me abandonara. Eu também estava descalço, porque entregara meus sapatos a Grover. Era melhor a Guarda Costeira se perguntar por que um de nós estava descalço do que se perguntar por que um de nós tinha cascos. Depois de chegar a terra firme, saímos cambaleando pela praia vendo a cidade queimar contra um lindo pôr do sol. Era como se tivesse acabado de retornar do mundo dos mortos – o que era verdade. Minha mochila estava pesada, com o raio-mestre de Zeus. Meu coração estava ainda mais pesado por ter visto minha mãe.
– Eu não acredito – disse Annabeth. – A gente passou por tudo aquilo e...
– Foi um truque – disse eu. – Uma estratégia digna de Atena.
– Ei - avisou.
– Você entendeu, não é?
Ela baixou os olhos, a raiva murchou.
– Sim. Entendi.
– Bem, eu não entendi! – reclamou Grover. – Será que alguém poderia...
– Percy... – disse Annabeth. – Eu sinto muito pela sua mãe. Sinto tanto...
Fiz que não estava ouvindo. Se eu falasse sobre a minha mãe, ia começar a chorar como uma criancinha.
– A profecia estava certa – disse eu. – Você deve ir para o oeste, e enfrentar o deus que se tornou desleal. Mas não era Hades. Hades não queria guerra entre os Três Grandes. Algum outro executou o roubou. Alguém roubou o raio-mestre de Zeus, e o elmo de Hades, e tramou contra mim porque sou filho de Poseidon. Poseidon será culpado por ambos os lados. Ao pôr do sol de hoje, haverá uma guerra tríplice. E eu a terei causado.
Grover sacudiu a cabeça, desconcertado.
– Mas quem seria tão fingido? Quem iria querer uma guerra tão ruim?
Parei bruscamente, olhando para a praia.
– Puxa, deixem-me pensar.
Ali estava ele, aguardando por nós, em seu casaco preto de couro, e óculos escuros, um bastão de beisebol de alumínio ao ombro. A motocicleta roncava ao seu lado, o farol deixando a areia vermelha.
– Ei, garoto – disse Ares, parecendo genuinamente contente em me ver. – Você devia estar morto.
– Você me enganou – disse eu. – Você roubou o elmo e o raio-mestre.
Ares arreganhou um sorriso.
– Bem, mas eu não os roubei pessoalmente. Deuses tirando símbolos de poder uns dos outros, nã-nã-nã, isso é inaceitável. Mas você não é o único herói do mundo que pode dar recados.
– Quem você usou? Clarisse? Ela estava lá no solstício de inverno.
A ideia pareceu diverti-lo.
– Não importa. A questão, garoto, é que você está impedindo o esforço de guerra. Entenda, você precisa morrer no Mundo Inferior. Então o Velho Alga do Mar vai ficar furioso com Hades por matá-lo. O Hálito de Cadáver ficará com o raio-mestre de Zeus, e assim Zeus ficará furioso com ele. E Hades ainda está procurando por isto...
Ele tirou do bolso um capuz de esqui – do tipo que os ladrões de banco usam – e o colocou no meio do guidão da sua moto. Imediatamente, o capuz se transformou em um elaborado capacete de guerra em bronze.
– O elmo das trevas – arfou Grover.
– Exatamente – disse Ares. – Mas onde é mesmo que eu estava? Ah, sim, Hades ficará furioso com ambos, Zeus e Poseidon, porque ele não sabe quem pegou isto. Logo logo teremos uma bela pancadariazinha tríplice em andamento.
– Mas eles são a sua família! – protestou Annabeth.
Ares encolheu os ombros.
– O melhor tipo de guerra. Sempre a mais sangrenta. Nada como ficar olhando seus parentes lutarem, eu sempre digo.
– Você me deu a mochila em Denver – disse eu. – O raio-mestre estava lá o tempo todo.
– Sim e não – disse Ares. – Provavelmente é complicado demais para o seu pequeno cérebro mortal acompanhar, mas a mochila é a bainha do raio-mestre, apenas um pouco adaptada. O raio está conectado a ela, tipo aquela sua espada, garoto. Ela sempre volta para o seu bolso, certo?
Não estava bem certo de como Ares sabia disso, mas acho que um deus da guerra precisa tratar de conhecer tudo sobre armas.
– De qualquer modo – continuou Ares – eu modifiquei a mágica um pouquinho, para que o raio só retornasse à bainha depois de você chegar ao Mundo Inferior. Chegou perto de Hades... Bingo! Você recebeu um e-mail. Se você morresse no caminho, não haveria perda. Eu ainda teria a arma.
– Mas por que você simplesmente não ficou com o raio para você? – disse eu. – Por que mandá-lo para Hades?
O queixo de Ares crispou-se. Por um momento, foi quase como se ele estivesse ouvindo uma outra voz, bem no fundo da cabeça.
– Por que eu não... sim... com esse tipo de poder de fogo...
Ele manteve o transe por um segundo... dois segundos... Troquei olhares nervosos com Annabeth. A cara de Ares clareou.
– Porque eu não queria ter problemas. Melhor você ser pego em flagrante, segurando a coisa.
– Você está mentindo – disse eu. – Mandar o raio para o Mundo Inferior não foi ideia sua, foi?
– É claro que foi! – Fumaça escapou por baixo dos seus óculos escuros, como se eles estivessem a ponto de pegar fogo.
– Você não ordenou o roubo – adivinhei. – Alguém mais enviou um herói para roubar os dois itens. Então, quando Zeus mandou você caçá-lo, você pegou o ladrão. Mas você não o entregou a Zeus. Alguma coisa o convenceu a deixá-lo ir. Você guardou os itens até que outro herói pudesse vir e completar a entrega. Aquela coisa no abismo está dando ordens a você.
– Eu sou o deus da guerra! Não aceito ordens de ninguém! Eu não tenho sonhos!
Eu hesitei.
– Quem foi que disse alguma coisa sobre sonhos?
Ares pareceu agitado, mas tentou encobrir isso com um sorriso forçado.
– Vamos voltar ao problema em pauta, garoto. Você está vivo. Eu não posso deixar que leve aquele raio para o Olimpo. Pode ser que consiga convencer aqueles idiotas cabeças-duras a ouvi-lo. Portanto preciso matá-lo. Não é nada pessoal.
Ele estalou os dedos. A areia explodiu aos seus pés e surgiu um javali feroz investindo, ainda maior e mais feio que aquele cuja cabeça estava pendurada acima da porta do chalé 5 do Acampamento Meio-Sangue. A besta escavou a areia, olhando furiosamente para mim com olhos pequenos e brilhantes enquanto abaixava os presas afiadas como navalhas e aguardava a ordem para matar. Eu entrei na arrebentação.
– Enfrente-me você mesmo, Ares.
Ele riu, mas ouvi um pouco de tensão na sua risada... um certo constrangimento.
– Você só tem um talento, garoto, que é fugir. Você fugiu da Quimera. Você fugiu do Mundo Inferior. Não tem coragem para me enfrentar.
– Com medo?
– Só nos seus sonhos de adolescente. – Mas seus óculos escuros estavam começando a derreter com o calor dos olhos. – Nada de envolvimento direto. Sinto muito, garoto. Você não está no meu nível.
Annabeth disse:
– Percy, corra!
O javali gigante atacou. Mas eu já estava cansado de correr de monstros. Ou de Hades, ou de Ares, ou de qualquer um. Quando o javali investiu contra mim, eu destampei minha caneta e dei um passo para o lado. Contracorrente apareceu em minhas mãos. Dei um golpe para cima. A presa direita decepada do javali caiu aos meus pés, enquanto o animal desorientado investia contra o mar. Eu gritei:
– Onda! Imediatamente uma onda surgiu do nada e engolfou o javali, enrolando-se nele como um cobertor. A besta guinchou uma vez, aterrorizada. E então se foi, engolida pelo mar.
Voltei-me novamente para Ares.
– Você vai lutar comigo agora? – perguntei. – Ou vai se esconder de novo atrás de um porquinho de estimação?
A cara de Ares estava roxa de raiva.
– Tome cuidado, garoto. Eu poderia transformá-lo em...
– Uma barata – disse eu. – Ou uma lombriga. Sim, eu tenho certeza. Isso o salvaria de ter o seu divino couro chicoteado, não é mesmo?
Chamas dançaram por cima dos seus óculos.
– Ah, você realmente está pedindo para ser esmagado até virar uma poça de gordura.
– Se eu perder, me transforme no que quiser. Fique com o raio. Se eu vencer, o elmo e o raio são meus, e você tem de ir embora.
Ares me olhou com uma expressão de escárnio. Ele brandiu o bastão de beisebol que trazia ao ombro.
– Como gostaria de ser esmagado: modo clássico ou moderno? – Eu lhe mostrei a minha espada. – Legal, menino morto – disse ele. – Modo clássico então.
O bastão de beisebol transformou-se em uma enorme espada de duas mãos. A guarda era uma grande caveira de prata com um rubi na boca.
– Percy – disse Annabeth. – Não faça isso. Ele é um deus.
– Ele é um covarde – disse eu para ela.
Ela engoliu em seco.
– Use isto pelo menos. Para dar sorte. – Ela tirou o seu colar, com cinco anos de contas do acampamento e o anel do pai dela e colocou em volta do meu pescoço. – Reconciliação – disse ela. – Atena e Poseidon juntos. Meu rosto ficou um pouco quente, mas consegui sorrir.
– Obrigado.
– E pegue isto – disse Grover.
Ele me entregou uma lata achatada que parecia estar no seu bolso há mil quilômetros.
– Os sátiros lhe dão respaldo.
– Grover... eu não sei o que dizer.
Ele me deu uma palmadinha no ombro. Enfiei a lata no meu bolso de trás.
– Vocês já se despediram? – Ares veio em minha direção, o comprido casaco de couro preto se arrastando atrás dele, a espada faiscando como fogo ao nascer do sol. – Eu venho lutando há uma eternidade, garoto. Minha força é ilimitada e eu não posso morrer. O que você tem?
Um ego menor, pensei, mas não disse nada. Mantive os pés na arrebentação, recuando na água até os tornozelos. Pensei no que Annabeth havia dito no restaurante de Denver, tanto tempo atrás: Ares tem força. É tudo o que ele tem. Mesmo a força às vezes tem de se curvar à sabedoria.
Ele desceu a espada, tentando rachar ao meio a minha cabeça, mas eu não estava lá. Meu corpo pensava por mim. A água pareceu me empurrar para o ar e eu me lancei para cima dele, golpeando para o lado com a espada ao descer. Mas Ares foi igualmente rápido. Torceu o corpo e o golpe que deveria tê-lo pego diretamente na espinha foi desviado para fora pela guarda da sua espada. Ele sorriu.
– Nada mau, nada mau.
Ele atacou de novo e fui forçado a pular para a terra seca. Tentei sair de lado, para voltar à água, mas Ares parecia saber o que eu queria. Ele foi mais habilidoso, me pressionando tanto que tive de me concentrar totalmente em não ser cortado em pedaços. Continuei recuando para longe da arrebentação. Não conseguia achar nenhuma abertura para atacar. O alcance da espada- dele era bem maior que o de Anaklusmos. Chegue perto, Luke me dissera uma vez, em nossa aula de esgrima. Quando a sua lâmina é a mais curta, chegue perto. Avancei com uma estocada, mas Ares estava esperando por isso. Ele arrancou a espada das minhas mãos e me chutou no peito. Eu saí voando – cinco, talvez dez metros.Teria quebrado as costas se não tivesse desabado sobre a areia fofa de uma duna.
– Percy! – gritou Annabeth. – Polícia!
Estava vendo tudo dobrado. Parecia que o meu peito tinha sido atingido por um aríete, mas consegui me pôr em pé. Eu não podia desviar os olhos de Ares por medo de que ele me cortasse ao meio, mas com o canto do olho vi as luzes vermelhas piscando na avenida beira-mar. Portas de carros batiam.
– Ali, guarda! – gritou alguém. – Está vendo?
Uma voz brusca de policial:
– Parece aquele garoto da tevê... que diabo...
– Aquele cara está armado – disse outro policial. – Peça reforços.
Rolei para o lado e a lâmina de Ares cortou a areia. Corri para a minha espada, peguei-a e desferi um golpe contra o rosto de Ares, apenas para ver a minha lâmina desviada de novo. Ares parecia saber exatamente o que eu ia fazer um momento antes. Recuei para a arrebentação, forçando-o a me seguir.
– Admita, garoto – disse Ares. – Você está perdido. Estou só brincando com você.
Meus sentidos estavam fazendo hora extra. Agora eu entendia o que Annabeth dissera sobre como o transtorno do déficit de atenção pode manter você vivo na batalha. Eu estava totalmente desperto, notando cada pequeno detalhe. Eu podia ver onde Ares estava se retesando. Podia dizer de que lado ia atacar. Ao mesmo tempo, tinha consciência de Annabeth e Grover, dez metros à minha esquerda. Vi uma segunda viatura parando, a sirene uivando. Espectadores, pessoas que perambula viam pelas ruas por causa do terremoto, começavam a se juntar.
No meio da multidão, pensei ver alguns andando com aquele estranho passo de trote de sátiros disfarçados. Havia também vultos rebrilhantes de espíritos, como se os mortos tivessem se erguido do Hades para assistir à batalha. Ouvi o bater de asas coriáceas circulando em algum lugar acima. Mais sirenes. Avancei mais para dentro da água, mas Ares foi rápido. A ponta da sua espada rasgou a manga da minha roupa e roçou o meu antebraço. A voz de um policial no megafone disse:
– Larguem as espingardas! Coloquem na areia. Agora!
Espingardas? Olhei para a arma de Ares, e ela parecia estar tremeluzindo; às vezes parecia uma espingarda, às vezes uma espada de duas mãos. Eu não sabia o que os seres humanos estavam vendo em minhas mãos, mas tinha certeza de que não os faria gostar de mim. Ares virou-se para olhar ferozmente para os nossos espectadores, o que me deu um momento para respirar. Havia cinco viaturas de polícia agora, e uma fileira de policiais abaixados atrás delas, com pistolas apontadas para nós.
– Este é um assunto particular! – berrou Ares. – Vão embora!
Ele fez um movimento circular com a mão, e uma parede de chamas vermelhas passou através das viaturas. Os policiais mal tiveram tempo de mergulhar para se proteger antes de os carros explodirem. A multidão se dispersou aos gritos. Ares soltou uma gargalhada retumbante.
– Agora, heroizinho. Vamos acrescentar você ao churrasco.
Ele golpeou. Eu desviei da lâmina. Cheguei perto o bastante para atacar, tentei enganá-lo com uma ginga, mas o meu golpe foi rechaçado. As ondas agora estavam me atingindo nas costas. Ares estava mergulhado até as coxas, avançando atrás de mim. Senti o ritmo do mar, as ondas ficando maiores enquanto a maré avançava, e de repente tive uma ideia. Ondas pequenas, pensei. E a água atrás de mim pareceu recuar. Eu estava segurando a maré com a força da minha vontade, mas a tensão se acumulava, como gás carbônico atrás de uma rolha. Ares avançou, sorrindo confiante. Eu abaixei a minha lâmina, como se estivesse exausto demais para prosseguir. Aguarde, eu disse para o mar. A pressão agora estava quase me levantando acima dos pés. Ares ergueu a espada. Eu liberei a maré e pulei, subindo como um rojão em uma onda, passando diretamente por cima de Ares. Uma parede de dois metros de água o atingiu em cheio no rosto, e ele ficou praguejando e cuspindo com a boca cheia de algas. Caí em pé atrás dele, espirrando água, e simulei um ataque em direção à cabeça dele, como já havia feito. Ele se virou a tempo de erguer a espada, mas dessa vez estava desorientado e não previu o truque. Mudei de direção, investi para o lado e mandei Contracorrente diretamente para baixo na água, enfiando a ponta no calcanhar do deus. O rugido que se seguiu fez o terremoto do Hades parecer um evento menor. O próprio mar explodiu para longe de Ares, deixando um círculo de areia molhada com quinze metros de diâmetro. Icor, o sangue dourado dos deuses, jorrou de um talho profundo na bota do deus. A expressão no seu rosto ia além do ódio. Era dor, choque, incredulidade total por ter sido ferido. Ele veio mancando na minha direção, resmungando antigas pragas gregas. Alguma coisa o deteve.
Era como se uma nuvem tivesse encoberto o sol, mas pior. A luz foi sumindo. Sons e cores se extinguiram. Uma presença fria e pesada passou sobre a praia, retardando o tempo, diminuindo a temperatura até o congelamento, e fazendo-me sentir que a vida não valia a pena, que lutar era inútil. As trevas se dissiparam. Ares parecia aturdido. As viaturas da polícia ardiam atrás de nós. A multidão de espectadores fugira. Annabeth e Grover estavam plantados na praia, em choque, observando a água se derramar de volta em torno dos pés de Ares, e o seu luminescente icor dourado se diluindo na maré. Ares abaixou a espada.
– Você fez um inimigo, filhote de deus – disse-me ele. – Você selou o seu destino. A cada vez que erguer a sua lâmina em batalha, a cada vez que você esperar sucesso, sentirá a minha maldição. Cuidado, Perseu Jackson. Cuidado. Seu corpo começou a brilhar.
– Percy! – gritou Annabeth. – Não olhe!
Virei-me enquanto o deus Ares revelava sua verdadeira forma imortal. De algum modo eu sabia que, se olhasse, iria me desintegrar em cinzas. A luz se extinguiu. Olhei para trás. Ares se fora. A maré recuou para revelar o elmo de bronze das trevas de Hades. Eu o recolhi e fui andando na direção dos meus amigos. Mas, antes de chegar lá, ouvi o bater de asas de couro. Três vovós de aparência maligna com chapéus de renda e chicotes flamejantes desceram do céu e pousaram diante de mim. A Fúria do meio, a que tinha sido a Sra. Dodds, deu um passo à frente. Seus caninos estavam expostos, mas pela primeira vez não tinha um aspecto ameaçador. Parecia mais desapontada, como se tivesse planejado me comer na ceia, mas percebera que eu podia lhe dar indigestão.
– Nós vimos tudo – sibilou ela. – Então... realmente não foi você?
Joguei o capacete para ela, e ela o agarrou, surpresa.
– Devolva isto ao Senhor Hades – disse eu. – Conte-lhe a verdade. Diga-lhe para cancelar a guerra.
Ela hesitou, depois passou uma língua bifurcada pelos lábios coriáceos verdes. – Viva bem, Percy Jackson. Torne-se um verdadeiro herói. Porque, se você não o fizer, se algum dia cair nas minhas garras de novo...
Ela cacarejou, saboreando a ideia. Então ela e as irmãs levantaram voo em suas asas de morcego, pairaram no céu cheio de fumaça e desapareceram. Juntei-me a Grover e Annabeth, que olhavam para mim assombrados.
– Percy... – disse Grover. – Aquilo foi tão incrivelmente...
– Aterrorizante – disse Annabeth.
– Legal! – corrigiu Grover.
Eu não me sentia aterrorizado. Certamente não me sentia legal. Estava cansado, doído e sem nenhuma energia.
– Vocês sentiram aquele... o que era aquilo? – perguntei.
Os dois assentiram, constrangidos.
– Devem ser as Fúrias lá no alto – disse Grover. Mas eu não tinha tanta certeza. Alguma coisa impedira Ares de me matar, e o que quer que pudesse fazer isso era muito mais forte do que as Fúrias. Olhei para Annabeth, e tivemos a mesma sensação. Agora eu sabia o que estava naquele abismo, o que havia falado da entrada do Tártaro. Resgatei a minha mochila com Grover e olhei dentro. O raio-mestre ainda estava lá. Uma coisa tão pequena quase causara a Terceira Guerra Mundial.
– Temos de voltar a Nova York – disse eu. – Esta noite.
– É impossível – disse Annabeth – a não ser que nós...
– Fôssemos voando – completei.
Ela arregalou os olhos para mim.
– Voando, tipo num avião, coisa que avisaram você para nunca fazer, para que Zeus não o fulmine para fora do céu, e ainda for cima carregando uma arma que tem mais poder destrutivo do que uma bomba nuclear?
– É – disse eu. – Mais ou menos isso. Vamos.
– Eu não acredito – disse Annabeth. – A gente passou por tudo aquilo e...
– Foi um truque – disse eu. – Uma estratégia digna de Atena.
– Ei - avisou.
– Você entendeu, não é?
Ela baixou os olhos, a raiva murchou.
– Sim. Entendi.
– Bem, eu não entendi! – reclamou Grover. – Será que alguém poderia...
– Percy... – disse Annabeth. – Eu sinto muito pela sua mãe. Sinto tanto...
Fiz que não estava ouvindo. Se eu falasse sobre a minha mãe, ia começar a chorar como uma criancinha.
– A profecia estava certa – disse eu. – Você deve ir para o oeste, e enfrentar o deus que se tornou desleal. Mas não era Hades. Hades não queria guerra entre os Três Grandes. Algum outro executou o roubou. Alguém roubou o raio-mestre de Zeus, e o elmo de Hades, e tramou contra mim porque sou filho de Poseidon. Poseidon será culpado por ambos os lados. Ao pôr do sol de hoje, haverá uma guerra tríplice. E eu a terei causado.
Grover sacudiu a cabeça, desconcertado.
– Mas quem seria tão fingido? Quem iria querer uma guerra tão ruim?
Parei bruscamente, olhando para a praia.
– Puxa, deixem-me pensar.
Ali estava ele, aguardando por nós, em seu casaco preto de couro, e óculos escuros, um bastão de beisebol de alumínio ao ombro. A motocicleta roncava ao seu lado, o farol deixando a areia vermelha.
– Ei, garoto – disse Ares, parecendo genuinamente contente em me ver. – Você devia estar morto.
– Você me enganou – disse eu. – Você roubou o elmo e o raio-mestre.
Ares arreganhou um sorriso.
– Bem, mas eu não os roubei pessoalmente. Deuses tirando símbolos de poder uns dos outros, nã-nã-nã, isso é inaceitável. Mas você não é o único herói do mundo que pode dar recados.
– Quem você usou? Clarisse? Ela estava lá no solstício de inverno.
A ideia pareceu diverti-lo.
– Não importa. A questão, garoto, é que você está impedindo o esforço de guerra. Entenda, você precisa morrer no Mundo Inferior. Então o Velho Alga do Mar vai ficar furioso com Hades por matá-lo. O Hálito de Cadáver ficará com o raio-mestre de Zeus, e assim Zeus ficará furioso com ele. E Hades ainda está procurando por isto...
Ele tirou do bolso um capuz de esqui – do tipo que os ladrões de banco usam – e o colocou no meio do guidão da sua moto. Imediatamente, o capuz se transformou em um elaborado capacete de guerra em bronze.
– O elmo das trevas – arfou Grover.
– Exatamente – disse Ares. – Mas onde é mesmo que eu estava? Ah, sim, Hades ficará furioso com ambos, Zeus e Poseidon, porque ele não sabe quem pegou isto. Logo logo teremos uma bela pancadariazinha tríplice em andamento.
– Mas eles são a sua família! – protestou Annabeth.
Ares encolheu os ombros.
– O melhor tipo de guerra. Sempre a mais sangrenta. Nada como ficar olhando seus parentes lutarem, eu sempre digo.
– Você me deu a mochila em Denver – disse eu. – O raio-mestre estava lá o tempo todo.
– Sim e não – disse Ares. – Provavelmente é complicado demais para o seu pequeno cérebro mortal acompanhar, mas a mochila é a bainha do raio-mestre, apenas um pouco adaptada. O raio está conectado a ela, tipo aquela sua espada, garoto. Ela sempre volta para o seu bolso, certo?
Não estava bem certo de como Ares sabia disso, mas acho que um deus da guerra precisa tratar de conhecer tudo sobre armas.
– De qualquer modo – continuou Ares – eu modifiquei a mágica um pouquinho, para que o raio só retornasse à bainha depois de você chegar ao Mundo Inferior. Chegou perto de Hades... Bingo! Você recebeu um e-mail. Se você morresse no caminho, não haveria perda. Eu ainda teria a arma.
– Mas por que você simplesmente não ficou com o raio para você? – disse eu. – Por que mandá-lo para Hades?
O queixo de Ares crispou-se. Por um momento, foi quase como se ele estivesse ouvindo uma outra voz, bem no fundo da cabeça.
– Por que eu não... sim... com esse tipo de poder de fogo...
Ele manteve o transe por um segundo... dois segundos... Troquei olhares nervosos com Annabeth. A cara de Ares clareou.
– Porque eu não queria ter problemas. Melhor você ser pego em flagrante, segurando a coisa.
– Você está mentindo – disse eu. – Mandar o raio para o Mundo Inferior não foi ideia sua, foi?
– É claro que foi! – Fumaça escapou por baixo dos seus óculos escuros, como se eles estivessem a ponto de pegar fogo.
– Você não ordenou o roubo – adivinhei. – Alguém mais enviou um herói para roubar os dois itens. Então, quando Zeus mandou você caçá-lo, você pegou o ladrão. Mas você não o entregou a Zeus. Alguma coisa o convenceu a deixá-lo ir. Você guardou os itens até que outro herói pudesse vir e completar a entrega. Aquela coisa no abismo está dando ordens a você.
– Eu sou o deus da guerra! Não aceito ordens de ninguém! Eu não tenho sonhos!
Eu hesitei.
– Quem foi que disse alguma coisa sobre sonhos?
Ares pareceu agitado, mas tentou encobrir isso com um sorriso forçado.
– Vamos voltar ao problema em pauta, garoto. Você está vivo. Eu não posso deixar que leve aquele raio para o Olimpo. Pode ser que consiga convencer aqueles idiotas cabeças-duras a ouvi-lo. Portanto preciso matá-lo. Não é nada pessoal.
Ele estalou os dedos. A areia explodiu aos seus pés e surgiu um javali feroz investindo, ainda maior e mais feio que aquele cuja cabeça estava pendurada acima da porta do chalé 5 do Acampamento Meio-Sangue. A besta escavou a areia, olhando furiosamente para mim com olhos pequenos e brilhantes enquanto abaixava os presas afiadas como navalhas e aguardava a ordem para matar. Eu entrei na arrebentação.
– Enfrente-me você mesmo, Ares.
Ele riu, mas ouvi um pouco de tensão na sua risada... um certo constrangimento.
– Você só tem um talento, garoto, que é fugir. Você fugiu da Quimera. Você fugiu do Mundo Inferior. Não tem coragem para me enfrentar.
– Com medo?
– Só nos seus sonhos de adolescente. – Mas seus óculos escuros estavam começando a derreter com o calor dos olhos. – Nada de envolvimento direto. Sinto muito, garoto. Você não está no meu nível.
Annabeth disse:
– Percy, corra!
O javali gigante atacou. Mas eu já estava cansado de correr de monstros. Ou de Hades, ou de Ares, ou de qualquer um. Quando o javali investiu contra mim, eu destampei minha caneta e dei um passo para o lado. Contracorrente apareceu em minhas mãos. Dei um golpe para cima. A presa direita decepada do javali caiu aos meus pés, enquanto o animal desorientado investia contra o mar. Eu gritei:
– Onda! Imediatamente uma onda surgiu do nada e engolfou o javali, enrolando-se nele como um cobertor. A besta guinchou uma vez, aterrorizada. E então se foi, engolida pelo mar.
Voltei-me novamente para Ares.
– Você vai lutar comigo agora? – perguntei. – Ou vai se esconder de novo atrás de um porquinho de estimação?
A cara de Ares estava roxa de raiva.
– Tome cuidado, garoto. Eu poderia transformá-lo em...
– Uma barata – disse eu. – Ou uma lombriga. Sim, eu tenho certeza. Isso o salvaria de ter o seu divino couro chicoteado, não é mesmo?
Chamas dançaram por cima dos seus óculos.
– Ah, você realmente está pedindo para ser esmagado até virar uma poça de gordura.
– Se eu perder, me transforme no que quiser. Fique com o raio. Se eu vencer, o elmo e o raio são meus, e você tem de ir embora.
Ares me olhou com uma expressão de escárnio. Ele brandiu o bastão de beisebol que trazia ao ombro.
– Como gostaria de ser esmagado: modo clássico ou moderno? – Eu lhe mostrei a minha espada. – Legal, menino morto – disse ele. – Modo clássico então.
O bastão de beisebol transformou-se em uma enorme espada de duas mãos. A guarda era uma grande caveira de prata com um rubi na boca.
– Percy – disse Annabeth. – Não faça isso. Ele é um deus.
– Ele é um covarde – disse eu para ela.
Ela engoliu em seco.
– Use isto pelo menos. Para dar sorte. – Ela tirou o seu colar, com cinco anos de contas do acampamento e o anel do pai dela e colocou em volta do meu pescoço. – Reconciliação – disse ela. – Atena e Poseidon juntos. Meu rosto ficou um pouco quente, mas consegui sorrir.
– Obrigado.
– E pegue isto – disse Grover.
Ele me entregou uma lata achatada que parecia estar no seu bolso há mil quilômetros.
– Os sátiros lhe dão respaldo.
– Grover... eu não sei o que dizer.
Ele me deu uma palmadinha no ombro. Enfiei a lata no meu bolso de trás.
– Vocês já se despediram? – Ares veio em minha direção, o comprido casaco de couro preto se arrastando atrás dele, a espada faiscando como fogo ao nascer do sol. – Eu venho lutando há uma eternidade, garoto. Minha força é ilimitada e eu não posso morrer. O que você tem?
Um ego menor, pensei, mas não disse nada. Mantive os pés na arrebentação, recuando na água até os tornozelos. Pensei no que Annabeth havia dito no restaurante de Denver, tanto tempo atrás: Ares tem força. É tudo o que ele tem. Mesmo a força às vezes tem de se curvar à sabedoria.
Ele desceu a espada, tentando rachar ao meio a minha cabeça, mas eu não estava lá. Meu corpo pensava por mim. A água pareceu me empurrar para o ar e eu me lancei para cima dele, golpeando para o lado com a espada ao descer. Mas Ares foi igualmente rápido. Torceu o corpo e o golpe que deveria tê-lo pego diretamente na espinha foi desviado para fora pela guarda da sua espada. Ele sorriu.
– Nada mau, nada mau.
Ele atacou de novo e fui forçado a pular para a terra seca. Tentei sair de lado, para voltar à água, mas Ares parecia saber o que eu queria. Ele foi mais habilidoso, me pressionando tanto que tive de me concentrar totalmente em não ser cortado em pedaços. Continuei recuando para longe da arrebentação. Não conseguia achar nenhuma abertura para atacar. O alcance da espada- dele era bem maior que o de Anaklusmos. Chegue perto, Luke me dissera uma vez, em nossa aula de esgrima. Quando a sua lâmina é a mais curta, chegue perto. Avancei com uma estocada, mas Ares estava esperando por isso. Ele arrancou a espada das minhas mãos e me chutou no peito. Eu saí voando – cinco, talvez dez metros.Teria quebrado as costas se não tivesse desabado sobre a areia fofa de uma duna.
– Percy! – gritou Annabeth. – Polícia!
Estava vendo tudo dobrado. Parecia que o meu peito tinha sido atingido por um aríete, mas consegui me pôr em pé. Eu não podia desviar os olhos de Ares por medo de que ele me cortasse ao meio, mas com o canto do olho vi as luzes vermelhas piscando na avenida beira-mar. Portas de carros batiam.
– Ali, guarda! – gritou alguém. – Está vendo?
Uma voz brusca de policial:
– Parece aquele garoto da tevê... que diabo...
– Aquele cara está armado – disse outro policial. – Peça reforços.
Rolei para o lado e a lâmina de Ares cortou a areia. Corri para a minha espada, peguei-a e desferi um golpe contra o rosto de Ares, apenas para ver a minha lâmina desviada de novo. Ares parecia saber exatamente o que eu ia fazer um momento antes. Recuei para a arrebentação, forçando-o a me seguir.
– Admita, garoto – disse Ares. – Você está perdido. Estou só brincando com você.
Meus sentidos estavam fazendo hora extra. Agora eu entendia o que Annabeth dissera sobre como o transtorno do déficit de atenção pode manter você vivo na batalha. Eu estava totalmente desperto, notando cada pequeno detalhe. Eu podia ver onde Ares estava se retesando. Podia dizer de que lado ia atacar. Ao mesmo tempo, tinha consciência de Annabeth e Grover, dez metros à minha esquerda. Vi uma segunda viatura parando, a sirene uivando. Espectadores, pessoas que perambula viam pelas ruas por causa do terremoto, começavam a se juntar.
No meio da multidão, pensei ver alguns andando com aquele estranho passo de trote de sátiros disfarçados. Havia também vultos rebrilhantes de espíritos, como se os mortos tivessem se erguido do Hades para assistir à batalha. Ouvi o bater de asas coriáceas circulando em algum lugar acima. Mais sirenes. Avancei mais para dentro da água, mas Ares foi rápido. A ponta da sua espada rasgou a manga da minha roupa e roçou o meu antebraço. A voz de um policial no megafone disse:
– Larguem as espingardas! Coloquem na areia. Agora!
Espingardas? Olhei para a arma de Ares, e ela parecia estar tremeluzindo; às vezes parecia uma espingarda, às vezes uma espada de duas mãos. Eu não sabia o que os seres humanos estavam vendo em minhas mãos, mas tinha certeza de que não os faria gostar de mim. Ares virou-se para olhar ferozmente para os nossos espectadores, o que me deu um momento para respirar. Havia cinco viaturas de polícia agora, e uma fileira de policiais abaixados atrás delas, com pistolas apontadas para nós.
– Este é um assunto particular! – berrou Ares. – Vão embora!
Ele fez um movimento circular com a mão, e uma parede de chamas vermelhas passou através das viaturas. Os policiais mal tiveram tempo de mergulhar para se proteger antes de os carros explodirem. A multidão se dispersou aos gritos. Ares soltou uma gargalhada retumbante.
– Agora, heroizinho. Vamos acrescentar você ao churrasco.
Ele golpeou. Eu desviei da lâmina. Cheguei perto o bastante para atacar, tentei enganá-lo com uma ginga, mas o meu golpe foi rechaçado. As ondas agora estavam me atingindo nas costas. Ares estava mergulhado até as coxas, avançando atrás de mim. Senti o ritmo do mar, as ondas ficando maiores enquanto a maré avançava, e de repente tive uma ideia. Ondas pequenas, pensei. E a água atrás de mim pareceu recuar. Eu estava segurando a maré com a força da minha vontade, mas a tensão se acumulava, como gás carbônico atrás de uma rolha. Ares avançou, sorrindo confiante. Eu abaixei a minha lâmina, como se estivesse exausto demais para prosseguir. Aguarde, eu disse para o mar. A pressão agora estava quase me levantando acima dos pés. Ares ergueu a espada. Eu liberei a maré e pulei, subindo como um rojão em uma onda, passando diretamente por cima de Ares. Uma parede de dois metros de água o atingiu em cheio no rosto, e ele ficou praguejando e cuspindo com a boca cheia de algas. Caí em pé atrás dele, espirrando água, e simulei um ataque em direção à cabeça dele, como já havia feito. Ele se virou a tempo de erguer a espada, mas dessa vez estava desorientado e não previu o truque. Mudei de direção, investi para o lado e mandei Contracorrente diretamente para baixo na água, enfiando a ponta no calcanhar do deus. O rugido que se seguiu fez o terremoto do Hades parecer um evento menor. O próprio mar explodiu para longe de Ares, deixando um círculo de areia molhada com quinze metros de diâmetro. Icor, o sangue dourado dos deuses, jorrou de um talho profundo na bota do deus. A expressão no seu rosto ia além do ódio. Era dor, choque, incredulidade total por ter sido ferido. Ele veio mancando na minha direção, resmungando antigas pragas gregas. Alguma coisa o deteve.
Era como se uma nuvem tivesse encoberto o sol, mas pior. A luz foi sumindo. Sons e cores se extinguiram. Uma presença fria e pesada passou sobre a praia, retardando o tempo, diminuindo a temperatura até o congelamento, e fazendo-me sentir que a vida não valia a pena, que lutar era inútil. As trevas se dissiparam. Ares parecia aturdido. As viaturas da polícia ardiam atrás de nós. A multidão de espectadores fugira. Annabeth e Grover estavam plantados na praia, em choque, observando a água se derramar de volta em torno dos pés de Ares, e o seu luminescente icor dourado se diluindo na maré. Ares abaixou a espada.
– Você fez um inimigo, filhote de deus – disse-me ele. – Você selou o seu destino. A cada vez que erguer a sua lâmina em batalha, a cada vez que você esperar sucesso, sentirá a minha maldição. Cuidado, Perseu Jackson. Cuidado. Seu corpo começou a brilhar.
– Percy! – gritou Annabeth. – Não olhe!
Virei-me enquanto o deus Ares revelava sua verdadeira forma imortal. De algum modo eu sabia que, se olhasse, iria me desintegrar em cinzas. A luz se extinguiu. Olhei para trás. Ares se fora. A maré recuou para revelar o elmo de bronze das trevas de Hades. Eu o recolhi e fui andando na direção dos meus amigos. Mas, antes de chegar lá, ouvi o bater de asas de couro. Três vovós de aparência maligna com chapéus de renda e chicotes flamejantes desceram do céu e pousaram diante de mim. A Fúria do meio, a que tinha sido a Sra. Dodds, deu um passo à frente. Seus caninos estavam expostos, mas pela primeira vez não tinha um aspecto ameaçador. Parecia mais desapontada, como se tivesse planejado me comer na ceia, mas percebera que eu podia lhe dar indigestão.
– Nós vimos tudo – sibilou ela. – Então... realmente não foi você?
Joguei o capacete para ela, e ela o agarrou, surpresa.
– Devolva isto ao Senhor Hades – disse eu. – Conte-lhe a verdade. Diga-lhe para cancelar a guerra.
Ela hesitou, depois passou uma língua bifurcada pelos lábios coriáceos verdes. – Viva bem, Percy Jackson. Torne-se um verdadeiro herói. Porque, se você não o fizer, se algum dia cair nas minhas garras de novo...
Ela cacarejou, saboreando a ideia. Então ela e as irmãs levantaram voo em suas asas de morcego, pairaram no céu cheio de fumaça e desapareceram. Juntei-me a Grover e Annabeth, que olhavam para mim assombrados.
– Percy... – disse Grover. – Aquilo foi tão incrivelmente...
– Aterrorizante – disse Annabeth.
– Legal! – corrigiu Grover.
Eu não me sentia aterrorizado. Certamente não me sentia legal. Estava cansado, doído e sem nenhuma energia.
– Vocês sentiram aquele... o que era aquilo? – perguntei.
Os dois assentiram, constrangidos.
– Devem ser as Fúrias lá no alto – disse Grover. Mas eu não tinha tanta certeza. Alguma coisa impedira Ares de me matar, e o que quer que pudesse fazer isso era muito mais forte do que as Fúrias. Olhei para Annabeth, e tivemos a mesma sensação. Agora eu sabia o que estava naquele abismo, o que havia falado da entrada do Tártaro. Resgatei a minha mochila com Grover e olhei dentro. O raio-mestre ainda estava lá. Uma coisa tão pequena quase causara a Terceira Guerra Mundial.
– Temos de voltar a Nova York – disse eu. – Esta noite.
– É impossível – disse Annabeth – a não ser que nós...
– Fôssemos voando – completei.
Ela arregalou os olhos para mim.
– Voando, tipo num avião, coisa que avisaram você para nunca fazer, para que Zeus não o fulmine para fora do céu, e ainda for cima carregando uma arma que tem mais poder destrutivo do que uma bomba nuclear?
– É – disse eu. – Mais ou menos isso. Vamos.
Capítulo 19
De certa forma, descobrimos a verdade
Imagine a maior aglomeração de gente que você já viu em um show, um campo de futebol lotado com um milhão de fãs. Agora imagine um campo um milhão de vezes maior do que esse, lotado, e imagine que a energia elétrica falhou e não há barulho, não há luz, nem aquelas bolas gigantes quicando por cima da multidão. Algo de trágico aconteceu nos bastidores. Uma massa sussurrante de gente fica simplesmente vagueando nas sombras sem direção, esperando um show que nunca vai começar. Se é capaz de imaginar isso, tem uma boa ideia de como são os Campos de Asfódelos. A grama preta tinha sido pisoteada por eras de pés mortos. Um vento morno e úmido soprava como o hálito de um pântano. Árvores negras – Grover me disse que eram choupos – cresciam em grupos aqui e ali. O teto da caverna era tão alto acima de nós que poderia passar por uma massa de nuvens de tempestade, a não ser pelas estalactites, que brilhavam em um cinza pálido e pareciam malvadamente pontudas. Tentei não imaginar que poderiam cair sobre nós a qualquer momento, mas havia várias delas salpicadas ao redor, que caíram e empalaram a si mesmas na grama preta. Acho que os mortos não precisavam se preocupar com pequenos riscos como ser espetados por estalactites do tamanho de foguetes. Annabeth, Grover e eu tentamos nos misturar com a multidão permanecendo de olho nos espíritos da segurança. Não pude deixar de procurar rostos familiares entre os espíritos de Asfódelos, mas é difícil olhar para os mortos. Seus rostos tremulam. Todos parecem ligeiramente zangados ou confusos. Eles até nos veem e falam, mas a voz soa como trepidações, como o chiado de morcegos. Depois que eles percebem que você não consegue entendê-los, fecham a cara e se afastam. Os mortos não são assustadores. São apenas tristes. Arrastamo-nos, seguindo a fila de recém-chegados que serpenteava desde os portões principais em direção a uma grande tenda, negra com uma faixa que dizia: JULGAMENTOS PARA O ELÍSIO E PARA A DANAÇÃO ETERNA Bem-vindos, Recém-Falecidos! Do fundo da tenda saíam duas filas muito menores. À esquerda, espíritos flanqueados por espíritos maligno de segurança marchavam por um caminho pedregoso rumo aos Campos de Punição, que incandesciam e fumegavam a distância, uma vastidão desértica e rachada com rios de lava e campos minados, e quilômetros de arame farpado separando as diferentes áreas de tortura. Mesmo de longe, pude ver pessoas sendo perseguidas por cães infernais, queimadas na fogueira, forçadas a correr nuas por plantações de cactos ou ouvir música de ópera. Pude apenas distinguir uma colina minúscula com o vulto do tamanho de uma formiga de Sísifo lutando para empurrar sua pedra até o topo. E vi também torturas piores – coisas que nem quero descrever. A fila que vinha do lado direito do pavilhão dos julgamentos era muito melhor. Dava num pequeno vale cercado de muros – uma comunidade com portões, que parecia ser a única parte feliz do Mundo Inferior. Além do portão de segurança havia belas casas de todos os períodos da história, vilas romanas, castelos medievais e mansões vitorianas. Flores de prata e ouro floresciam nos campos. A grama ondulava nas cores do arco-íris. Dava para ouvir os risos e sentir o cheiro de churrasco. Elísio. No meio daquele vale havia um brilhante lago azul, com três pequenas ilhas como um hotel de lazer nas Bahamas. As Ilhas dos Abençoados, para pessoas que escolheram renascer três vezes, e três vezes conquistaram o Elísio. No mesmo instante eu soube que era para lá que queria ir quando morresse.
– É isso mesmo – disse Annabeth como se estivesse lendo meus pensamentos. – Este é o lugar para os heróis.
Mas percebi como havia poucas pessoas no Elísio, como era minúsculo em comparação com os Campos de Asfódelos ou até os Campos da Punição. Portanto, poucas pessoas se davam bem em suas vidas. Era deprimente. Deixamos o pavilhão dos julgamentos e nos aprofundamos mais nos Campos de Asfódelos. Ficou mais escuro. As cores se esvaíram das nossas roupas. As multidões de espíritos tagarelas começaram a rarear. Depois de alguns quilômetros de caminhada, passamos a ouvir guinchos familiares à distância. Agigantando-se longe estava um palácio de obsidiana negra, brilhante. Acima dos baluartes rodopiavam três criaturas escuras semelhantes a morcegos: as Fúrias. Tive a sensação de que nos aguardavam.
– Talvez seja tarde demais para voltar atrás – disse Grover com tristeza.
– Vai dar tudo certo. – Tentei parecer confiante.
– Talvez devêssemos procurar em alguns dos outros lugares primeiro – sugeriu Grover. – Como o EIísio, por exemplo...
– Venha, menino-bode. – Annabeth agarrou-lhe o braço.
Grover ganiu. Seus tênis criaram asas e as pernas saltaram para a frente, puxando-o para longe de Annabeth. Ele aterrissou de costas na grama.
– Grover – ralhou Annabeth. – Pare de embromar.
– Mas eu não... – Ele ganiu de novo. Os tênis estavam agora batendo as asas como loucos. Levitaram do chão e começaram a arrastá-lo para longe de nós. – Maia! – gritou ele, mas a palavra mágica parecia não fazer mais efeito. – Maia, agora mesmo! Um-nove-zero! Socorro!
Eu me refiz da perplexidade e tentei agarrar a mão de Grover, mas era tarde demais. Ele estava ganhando velocidade, escorregando colina abaixo como um trenó. Corremos atrás dele. Annabeth gritou:
– Desamarre os tênis!
Foi uma ideia esperta, mas acho que isso não é tão fácil quando os seus sapatos o estão arrastando para a frente a toda velocidade. Grover tentou sentar, mas não conseguiu alcançar os cadarços. Continuamos correndo atrás dele, tentando mantê-lo à vista enquanto disparava por entre as pernas dos espíritos que matraqueavam para ele, aborrecidos. Eu tinha certeza de que Grover iria passar direto dos portões do palácio de Hades, mas de repente os tênis desviaram para a direita e o arrastaram na direção oposta.
A ladeira ficou mais íngreme. Grover ganhou velocidade. Annabeth e eu tivemos de correr a toda para acompanhá-lo. As paredes da caverna se estreitaram dos dois lados, e me dei conta de que estávamos entrando em algum tipo de túnel lateral. Não havia mais grama preta nem árvores, apenas pedras sob os pés, e a luz pálida das estalactites acima.
– Grover! – gritei, minha voz reverberando. – Segure em alguma coisa!
– O quê? – gritou ele de volta.
Estava agarrando os pedregulhos, mas não havia nada grande o bastante para reduzir sua velocidade. O túnel ficou mais escuro e frio. Os pelos dos meus braços se arrepiaram. O cheiro ali embaixo me deixava era nauseado. Me fez pensar em coisas que nem devia saber – sangue derramado sobre um antigo altar de pedra, o hálito fétido de um assassino. Então vi o que estava à nossa frente e, de repente, estanquei. O túnel se alargava para uma enorme caverna escura, e no meio havia um abismo do tamanho de um quarteirão da cidade. Grover estava escorregando direto para a borda.
– Venha, Percy! – gritou Annabeth, puxando-me pelo pulso.
– Mas aquilo...
– Eu sei! – gritou ela. – O lugar que você descreveu de seu sonho! Mas Grover vai cair se não o pegarmos.
Ela estava certa, é claro. O apuro de Grover fez com que me mexesse de novo. Ele estava gritando, arranhando o chão, mas os tênis alados continuavam a arrastá-lo em direção ao poço, e não parecia possível chegar até ele a tempo. O que o salvou foram seus cascos. Os tênis voadores sempre ficaram folgados nele, e quando Grover chocou-se com uma grande pedra, seu tênis esquerdo saiu voando e disparou para as trevas, abismo abaixo. O tênis direito continuou a puxá-lo, mas não tão depressa. Grover conseguiu reduzir a velocidade agarrando-se à grande pedra e usando-a como âncora. Estava a três metros da borda do abismo quando nós pegamos e o puxamos de volta ladeira acima. O outro tênis alado se desprendeu, circulou em volta de nós furiosamente e chutou nossas cabeças em protesto antes de voar para dentro do abismo a fim de juntar-se a seu par. Todos desabamos exaustos sobre os pedregulhos de obsidiana. Meus membros pareciam feitos de chumbo. Até minha mochila parecia mais pesada, como se alguém a tivesse enchido de pedras. Grover estava muito arranhado. Suas mãos sangravam. As pupilas dos olhos se transformaram em fendas, no estilo dos bodes como sempre acontecia quando ele estava aterrorizado.
– Eu não sei como... – arquejou ele. – Eu não...
– Espere – falei. – Escute. – Eu tinha ouvido algo. Um sussurro profundo na escuridão. Mais alguns segundos, e Annabeth disse:
– Percy, este lugar...
– Psiu. – Fiquei em pé. O som estava ficando mais alto, uma voz murmurante, malévola, vinda de longe, muito longe abaixo de nós. Vinda do abismo. Grover sentou-se.
– O... o que é esse ruído?
Agora Annabeth também ouvira. Pude ver em seus olhos.
– Tártaro. A entrada para o Tártaro.
Destampei Anaklusmos. A espada de bronze se expandiu, brilhando no escuro, e a voz maligna pareceu vacilar, só por um momento, antes de retomar seu canto. Eu agora quase conseguia distinguir palavras, palavras muito, muito antigas, ainda mais antigas que o grego. Como se...
– Mágica – falei.
– Temos de dar o fora daqui – disse Annabeth.
Juntos, arrastamos Grover para cima dos cascos e começamos a voltar pelo túnel. Minhas pernas não se moviam depressa o bastante. Minha mochila pesava. A voz ficou mais alta e irada atrás de nós, e desandamos a correr. Bem na hora. Uma rajada fria de vento nos aspirou pelas costas, como se o abismo inteiro estivesse inalando. Por um momento aterrorizante eu perdi o controle, e meus pés começaram a escorregar nos pedregulhos. Se estivéssemos mais perto da borda, teríamos sido sugados para dentro. Continuamos fazendo força para a frente e finalmente chegamos ao topo do túnel, onde a caverna se abria para os Campos de Asfódelos. O vento parou. Um lamento de indignação ecoou no fundo. Alguma coisa não estava feliz por termos escapado.
– O que era aquilo? – ofegou Grover quando desabamos na relativa segurança de um bosque de choupos negros – Um dos bichinhos de estimação de Hades?
Annabeth e eu nos entreolhamos. Eu podia ver que ela acalentava uma ideia, provavelmente a mesma que tivera durante a viagem de táxi a Los Angeles, mas estava apavorada demais para dividi-la comigo. Isso já era o bastante para me aterrorizar. Pus a tampa na minha espada, pus a caneta de volta no bolso.
– Vamos andando. – Olhei para Grover. – Consegue andar?
Ele engoliu em seco.
– Sim, com certeza. Nunca gostei muito daqueles tênis mesmo.
Ele tentou parecer valente, mas estava tremendo tanto quanto Annabeth e eu. O que quer que estivesse naquele abismo, não era o bichinho de estimação de ninguém. Era visivelmente antigo e poderoso. Nem mesmo Equidna me dera aquela sensação. Fiquei quase aliviado de dar as costas para aquele túnel e me dirigir para o palácio de Hades. Quase.
As Fúrias rodeavam os baluartes, lá no alto, nas trevas. As muralhas externas da fortaleza brilhavam em negro e os portões de bronze com dois andares de altura estavam escancarados.
De perto, vi que as gravações nos portões eram cenas de morte. Algumas de tempos modernos – uma bomba atômica explodindo sobre uma cidade, uma trincheira cheia de soldados usando máscaras de gás, uma fila de africanos vítimas da fome aguardando com tigelas vazias – mas todas pareciam ter sido gravadas no bronze havia milhares de anos. Fiquei pensando se estava olhando para profecias que se tornaram realidade. Dentro do pátio havia o jardim mais estranho que já vi. Cogumelos multicoloridos, arbustos venenosos e plantas luminosas fantasmagóricas cresciam sem a luz do sol. Gemas preciosas supriam a falta de flores, pilhas de rubis grandes como meu punho, aglomerados de diamantes brutos. Aqui e ali, como convidados de uma festa que foram congelados, havia estátuas de jardim da Medusa – crianças, sátiros e centauros petrificados – todos sorrindo grotescamente. No centro do jardim havia um pomar de romãzeiras, suas flores alaranjadas brilhando como néon no escuro.
– O jardim de Perséfone – disse Annabeth. – Continue andando.
Entendi por que ela quis seguir andando. O cheiro ácido daquelas romãs era quase irresistível. Tive um súbito desejo de comê-las, mas então me lembrei da história de Perséfone. Uma mordida de um alimento do Mundo Inferior e nunca mais poderíamos sair. Puxei Grover para longe, para impedi-lo de colher uma delas, grande e suculenta. Subimos os degraus do palácio, entre colunas negras, passando por um pórtico de mármore negro, para dentro da casa de Hades. O vestíbulo tinha um piso de bronze polido que parecia ferver à luz refletida das tochas. Não havia teto, apenas o teto da caverna muito acima. Acho que eles nunca precisaram se preocupar com chuva aqui embaixo. Todas as portas laterais eram guardadas por um esqueleto com trajes militares. Alguns usavam armaduras gregas, outros, uniformes ingleses de casacas vermelhas, e havia ainda os que vestiam roupas camufladas com bandeiras americanas esfarrapadas nos ombros. Carregavam lanças, mosquetes ou fuzis. Nenhum deles nos incomodou, mas suas órbitas ocas nos seguiram enquanto andávamos pelo vestíbulo em direção ao grande conjunto de portas no extremo oposto.
Dois esqueletos de fuzileiros navais americanos guardavam as portas. Eles sorriram para nós, com lançadores de granadas atravessadas no peito.
– Sabem de uma coisa – murmurou Grover – aposto que Hades não tem problemas para despachar vendedores de porta a porta.
Minha mochila agora pesava uma tonelada. Eu não conseguia imaginar por quê. Quis abri-la, verificar se por acaso havia colhido alguma bola de boliche perdida, mas aquele não era o momento.
– Bem, gente – disse. – Acho que devemos... bater?
Um vento quente soprou pelo corredor e as portas se abriram. Os guardas deram um passo para o lado.
– Acho que isso significa entrez-vous – disse Annabeth. Lá dentro a sala era exatamente como em meu sonho, só que dessa vez o trono de Hades estava ocupado. Era o terceiro deus que eu conhecia, mas o primeiro que realmente me impressionava como deus. Para início de conversa, ele tinha pelo menos três metros de altura, e usava mantos de seda preta e uma coroa de ouro trançado. Sua pele era branca como a de um albino, o cabelo comprido até os ombros era preto-azeviche. Não era corpulento como Ares, mas irradiava força. Reclinava-se em seu trono de ossos humanos fundidos parecendo flexível, elegante e perigoso como uma pantera.
No mesmo instante tive a sensação de que ele deveria dar as ordens. Sabia mais do que eu. Devia ser meu mestre. Então disse a mim mesmo para dar o fora. A aura de Hades estava me afetando, assim como acontecera com a de Ares. O Senhor dos Mortos lembrava retratos que eu tinha visto de Adolf Hitler, ou Napoleão, ou dos líderes terroristas que controlam os homens-bomba. Hades tinha o mesmo olhar intenso, o mesmo tipo de carisma hipnotizador e maligno.
– Você é corajoso de vir até aqui, Filho de Poseidon – disse ele com uma voz untuosa. – Depois do que me fez, você é muito valente, sem dúvida. Ou talvez seja simplesmente muito tolo.
Um entorpecimento se insinuou nas minhas juntas, tentando-me a deitar e tirar uma pequena soneca aos pés de Hades. Queria me enroscar ali e dormir para sempre. Lutei contra a sensação e dei um passo à frente. Sabia o que tinha de dizer.
– Senhor e tio, trago dois pedidos.
Hades ergueu uma sobrancelha. Quando ele chegou mais para a frente em seu trono, rostos sombrios apareceram nas dobras dos seus mantos negros, rostos atormentados, como se o traje fosse feito de almas dos Campos da Punição pegas ao tentar escapar, costuradas umas nas outras. Minha porção transtorno do déficit de atenção se perguntou se o resto das roupas dele era feito do mesmo modo. Que coisas horríveis alguém teria de fazer em vida para merecer ser parte da roupa de baixo de Hades?
– Só dois pedidos? – disse Hades. – Criança arrogante. Como se você já não tivesse recebido o bastante. Fale, então. Acho divertido esperar um pouco para fulminar você.
Engoli em seco. Aquilo estava indo mais ou menos tão bem quanto eu temia. Relanceei para o trono menor, vazio, ao lado do de Hades. Tinha a forma de uma flor negra, decorada em ouro. Desejei que a rainha Perséfone estivesse ali. Lembrei-me de algo nos mitos sobre como ela podia acalmar os humores do marido. Mas era verão. É claro que Perséfone estaria acima no mundo de luz com mãe, a deusa da agricultura, Deméter. Suas visitas, e não a inclinação do planeta, criavam as estações. Annabeth pigarreou. Seu dedo me cutucou nas costas.
– Senhor Hades – disse eu. – Olhe, senhor, não pode haver uma guerra entre os deuses. Isso seria... ruim.
– Realmente ruim – acrescentou Grover, querendo ajudar. – Devolva o raio-mestre de Zeus para mim – disse eu. – Por favor, senhor, deixe-me levá-lo para o Olimpo.
Os olhos de Hades brilharam perigosamente.
– Você se atreve a continuar com essa farsa, depois de tudo o que fez?
Dei uma olhada para os meus amigos atrás de mim. Pareciam tão confusos quanto eu.
– Ahn... tio – falei. – Você fica dizendo "depois de tudo o que você fez". O que foi, exatamente, que eu fiz?
A sala do trono tremeu com tanta força que, provavelmente, o impacto foi sentido lá em cima, em Los Angeles. Fragmentos de rocha caíram do teto da caverna. Portas se abriram violentamente em todas as paredes, e guerreiros esqueléticos marcharam para dentro, centenas deles, de todas as épocas e nações da civilização ocidental. Enfileiraram-se nos quatro cantos da sala, bloqueando as saídas. Hades urrou:
– Você acha que eu quero a guerra, filhote de deus?
Tive vontade de dizer, Bem, esses caras não se parecem muito com ativistas pela paz.Mas achei que poderia ser uma resposta perigosa.
– Você é o Senhor dos Mortos – falei com cautela. – Uma guerra iria expandir seu remo, certo?
– É bem característico dos meus irmãos dizerem uma coisa dessas! Acha que preciso de mais súditos? Não está vendo a grandeza dos Campos de Asfódelos?
– Bem...
– Você tem ideia de quanto meu reino inchou só neste último século, quantas subdivisões tive de criar? – Abri a boca para responder, mas Hades agora estava embalado. – Mais espíritos de segurança – queixou-se. – Problemas de trânsito no pavilhão de julgamentos. Horas extras em dobro para o pessoal. Eu era um deus rico, Percy Jackson. Controlo todos os metais preciosos embaixo da terra. Mas as minhas despesas!
– Caronte quer um aumento de salário – despejei, acabando de me lembrar do fato. Assim que falei, pensei que perdera uma ótima chance de ficar calado.
– Não me fale de Caronte! – gritou Hades. – Ele está impossível desde que descobriu os ternos italianos! Problemas em toda parte, e eu tenho de lidar com todos eles pessoalmente. O tempo de viagem entre o palácio e os portões já é suficiente para me deixar insano! E os mortos continuam chegando. Não, filhote de deus, eu não preciso de ajuda para arranjar súditos! Não pedi essa guerra.
– Mas você pegou o raio-mestre de Zeus.
– Mentiras! – Mais estrondos. Hades ergueu-se do trono, ficando da altura de uma trave de futebol. – Seu pai pode enganar Zeus, menino, mas eu não sou tão estúpido. Enxergo o plano dele.
– O plano dele?
– Você foi o ladrão no solstício de inverno – disse ele. – Seu pai pensou em mantê-lo como seu pequeno segredo. Ele o mandou para a sala do trono no Olimpo. Você pegou o raio-mestre e meu elmo. Se eu não tivesse enviado minha Fúria para descobri-lo na Academia Yancy, Poseidon talvez tivesse conseguido esconder o plano para desencadear uma guerra. Mas agora você foi forçado a aparecer. Será exposto como o ladrão de Poseidon, e eu terei meu elmo de volta!
– Mas... – falou Annabeth. Pude perceber que a cabeça dela estava a um milhão de quilômetros por hora. – Senhor Hades, seu elmo das trevas também desapareceu?
– Não banque a inocente comigo, menina. Você e o sátiro estiveram ajudando este herói, que veio aqui me ameaçar sem dúvida em nome de Poseidon, a me trazer um ultimato. Poseidon acha que posso ser chantageado para apoiá-lo?
– Não! – falei. – Poseidon não... eu não...
– Não falei nada do desaparecimento do elmo – rosnou Hades – porque não tenho ilusões de que alguém no Olimpo me faça justiça, que me dê alguma ajuda. Não posso permitir que vaze a notícia de que minha arma mais poderosa está desaparecida. Portanto procurei por você eu mesmo, e quando ficou claro que você vinha a mim para fazer sua ameaça, não tentei detê-lo.
– Você não tentou nos deter? Mas...
– Devolva meu elmo agora, ou vou interromper a morte – ameaçou Hades. – Esta é a minha contraproposta. Abrirei a terra e mandarei os mortos se despejarem de volta em seu mundo. Transformarei suas terras em um pesadelo. E você, Percy Jackson... o seu esqueleto liderará o meu exército para fora do Hades. Todos os soldados esqueléticos deram um passo à frente, com as armas de prontidão.
A essa altura, eu deveria ter ficado aterrorizado. O estranho foi que eu me senti ofendido. Nada me deixa mais zangado do que ser acusado de algo que não fiz. Já tivera uma porção de experiências com isso.
– Você é tão mau quanto Zeus – disse eu. – Acha que roubei você? E por isso que mandou as Fúrias atrás de mim?
– É claro – disse Hades.
– E os outros monstros? – Hades franziu o lábio.
– Não tive nada a ver com eles. Eu não queria uma morte rápida para você; queria você diante de mim, vivo, para enfrentar todas as torturas dos Campos da Punição. Por que acha que o deixei entrar no meu reino tão facilmente?
– Facilmente?
– Devolva o que me pertence!
– Mas eu não tenho o seu elmo. Vim buscar o raio-mestre.
– Que você já possui! – bradou Hades. – Você veio aqui com ele, pequeno idiota, achando que poderia me ameaçar!
– Não é verdade!
– Então abra a sua mochila.
Um pensamento horrível me assaltou. O peso da minha mochila, como uma bola de boliche... Não podia ser... Tirei a mochila dos ombros e abri o zíper. Dentro havia um cilindro de metal de sessenta centímetros de comprimento, com uma ponta de cada lado, zumbindo de energia.
– Percy – disse Annabeth. – Como...
– Eu... eu não sei. Não entendo.
– Vocês, heróis, são sempre iguais – disse Hades. – Seu orgulho os torna tolos, achando que podem trazer uma arma as sim diante de mim. Eu não pedi o raio de Zeus, mas já que ele está aqui, você o entregará a mim. Tenho certeza de que será um excelente instrumento de barganha. E agora... o meu elmo. Onde está?
Eu estava sem fala. Não tinha elmo nenhum. Não tinha ideia de como o raio-mestre fora parar na minha mochila. Quis pensar que Hades estava armando algum tipo de truque. Hades era o vilão. Mas de repente o mundo virará de lado. Percebi que havia sido usado. Alguém fizera Zeus, Poseidon e Hades quererem a caveira um do outro. O raio-mestre estava na minha mochila, e eu recebera a mochila de...
– Senhor Hades, espere – disse eu. – Isso tudo é um engano.
– Um engano? – rugiu Hades. Os esqueletos apontaram as armas. Lá no alto houve um bater de asas coriáceas, e as três Fúrias voaram para baixo para empoleirar-se nas costas do trono do seu senhor. A que tinha as feições da Sra. Dodds arreganhou um sorriso ávido para mim e estalou o seu chicote. – Não há engano nenhum – disse Hades. – Sei por que você veio, e sei a razão real por que trouxe o raio. Você veio negociar por ela.
Hades soltou uma bola de fogo dourado da palma de sua mão Ela explodiu nos degraus diante de mim, e lá estava a minha mãe congelada em uma chuva de ouro, exatamente como no momento em que o Minotauro começou a apertá-la até a morte. Não pude falar. Estendi a mão para tocá-la, mas a luz era quente como uma fogueira.
– Sim – disse Hades com satisfação. – Eu a tomei. Eu sabia, Percy Jackson, que você por fim viria barganhar comigo. Devolva o meu elmo, e talvez eu a deixe ir. Ela não está morta, você sabe. Ainda não. Mas, se você me desagradar, isso irá mudar.
Pensei nas pérolas no meu bolso. Talvez elas pudessem me safar daquilo. Se ao menos eu conseguisse libertar a minha mãe...
– Ah, as pérolas – disse Hades, e meu sangue gelou. – Sim meu irmão e os seus truquezinhos. Apresente-as, Percy Jackson. Minha mão se moveu contra a vontade e eu apresentei as pérolas. – Apenas três – disse Hades. – Que pena. Você sabe que cada qual protege uma só pessoa. Tente levar a sua mãe, então filhotinho de deus. E qual dos seus amigos você deixará para trás para passar a eternidade comigo? Vá em frente. Escolha. Ou me dê a mochila e aceite as minhas condições.
Olhei para Annabeth e Grover. Suas expressões eram soturnas.
– Fomos enganados – disse-lhes. – Pegos numa armadilha.
– Sim, mas por quê? – perguntou Annabeth. – E a voz no abismo...
– Ainda não sei – disse eu. – Mas pretendo perguntar.
– Decida, menino! – gritou Hades.
– Percy – Grover pôs a mão no meu ombro. – Você não pode lhe entregar o raio.
– Eu sei disso.
– Deixe-me aqui – disse ele. – Use a terceira pérola para sua mãe.
– Não!
– Eu sou um sátiro – disse Grover. – Nós não temos almas como os seres humanos. Ele pode me torturar até a morte, mas não ficará comigo para sempre. Eu reencarnarei em uma flor, ou alguma outra coisa. É o melhor jeito.
– Não. – Annabeth sacou a sua faca de bronze. – Vocês dois continuam. Grover, você tem de proteger Percy. Você tem de conseguir a sua licença de buscador e começar a sua missão por Pan. Tire a mãe dele para fora daqui. Eu lhes darei cobertura. Planejo cair lutando.
– Nem pensar – disse Grover. – Eu vou ficar para trás.
– Pense de novo, menino-bode – disse Annabeth.
– Parem, vocês dois! – Era como se o meu coração estivesse sendo rasgado ao meio. Ambos passaram por tanta coisa comigo. Lembrei-me de Grover bombardeando a medusa no jardim de estátuas, e de Annabeth nos salvando de Cérbero; nós sobrevivemos ao Parque Aquático de Hefesto, ao Arco de St. Louis, ao Cassino Lótus. Passei milhares de quilômetros preocupado porque seria traído por um amigo, mas aqueles amigos jamais fariam isso. Eles não fizeram nada a não ser me salvar, vezes e vezes seguidas, e agora queriam sacrificar suas vidas pela minha mãe.
– Eu sei o que fazer – disse eu. – Segurem isto. Entreguei uma pérola a cada um deles.
Annabeth disse:
– Mas, Percy...
Virei-me e encarei minha mãe. Queria desesperadamente me sacrificar e usar a última pérola para ela, mas sabia o que ela iria dizer. Ela jamais permitiria isso. Eu tinha de levar o raio de volta para o Olimpo e contar a verdade a Zeus. Tinha de impedir a guerra. Ela jamais me perdoaria se eu a salvasse em vez disso. Pensei na profecia feita na Colina Meio-Sangue, que parecia ter sido um milhão de anos atrás. No fim você não conseguirá salvar aquilo que mais importa.
– Desculpe – disse a ela. – Eu voltarei. Vou encontrar um jeito.
A expressão presunçosa na cara de Hades se apagou. Ele disse:
– Filhote de deus...?
– Vou encontrar o seu elmo, tio – disse a ele. – Vou devolvê-lo. Lembre-se do aumento de salário de Caronte.
– Não me desafie...
– E não faria mal brincar com Cérbero de vez em quando. Ele gosta de bolas de borracha vermelhas.
– Percy Jackson, você não vai...
Eu gritei:
– Agora!
Esmagamos as pérolas aos nossos pés. Por um momento apavorante, nada aconteceu.
Hades gritou:
– Destruam-nos!
O exército de esqueletos avançou, espadas desembainhadas fuzis engatilhados no modo totalmente automático. As Fúrias mergulharam, os chicotes explodindo em chamas. Exatamente quando os esqueletos abriram fogo, os fragmentos; de pérola aos meus pés explodiram em luz verde e uma rajada de ar fresco do mar. Eu fui encapsulado em uma esfera branca leitosa que começava a flutuar para fora do chão. Annabeth e Grover estavam bem atrás de mim. Lanças e balas ricochetearam inofensivamente nas bolhas de pérola enquanto flutuávamos para cima. Hades gritou com tamanha raiva que a fortaleza inteira se sacudiu e eu soube que aquela não seria uma noite tranquila em Los Angeles.
– Olhem para cima! – gritou Grover. – Vamos bater!
Sem dúvida, estávamos indo direto para as estalactites, as quais imaginei que iriam estourar as nossas bolhas e nos espetar.
– Como se controla essas coisas? – gritou Annabeth.
– Acho que não se controla! – gritei de volta.
Gritamos quando as bolhas colidiram com o teto e... Escuridão. Será que estávamos mortos?
Não, eu ainda tinha a sensação de velocidade. Estávamos indo para cima, através da rocha sólida, tão facilmente quanto uma bolha de ar na água. Aquele era o poder das pérolas, eu me dei conta – o que pertence ao mar sempre retornará ao mar. Por alguns momentos, não vi nada além das paredes macias da minha esfera, então minha pérola irrompeu no fundo do oceano. As outras duas esferas leitosas, Annabeth e Grover, me acompanharam enquanto disparávamos para cima através da água. E... pimba! Explodimos na superfície, no meio da baía de Santa Monica, jogando um surfista para fora da sua prancha com um indignado "Ei, cara!". Agarrei Grover e o arrastei até uma boia salva-vidas. Peguei Annabeth e a arrastei também. Um tubarão curioso dava voltas em torno de nós, um grande tubarão branco com cerca de três metros e meio de comprimento.
Eu disse:
– Cai fora! O tubarão se virou e fugiu apressado. O surfista gritou alguma coisa sobre cogumelos estragados e se afastou de nós patinhando o mais rápido que podia. De algum modo, eu sabia que horas eram: início da manhã, 21 de junho, o dia do solstício de verão. À distância, Los Angeles estava em chamas, nuvens de fumaça subindo de bairros por toda a cidade. Tinha havido um terremoto sem dúvida, e a culpa era de Hades. Provavelmente estava mandando um exército de mortos atrás de mim naquele instante. Mas, naquele momento, o Mundo Inferior não era o meu maior problema. Eu tinha de chegar até a praia. Tinha de levar o raio de Zeus de volta para o Olimpo. Mais que tudo, eu precisava ter uma conversa séria com o deus que me enganara.
– É isso mesmo – disse Annabeth como se estivesse lendo meus pensamentos. – Este é o lugar para os heróis.
Mas percebi como havia poucas pessoas no Elísio, como era minúsculo em comparação com os Campos de Asfódelos ou até os Campos da Punição. Portanto, poucas pessoas se davam bem em suas vidas. Era deprimente. Deixamos o pavilhão dos julgamentos e nos aprofundamos mais nos Campos de Asfódelos. Ficou mais escuro. As cores se esvaíram das nossas roupas. As multidões de espíritos tagarelas começaram a rarear. Depois de alguns quilômetros de caminhada, passamos a ouvir guinchos familiares à distância. Agigantando-se longe estava um palácio de obsidiana negra, brilhante. Acima dos baluartes rodopiavam três criaturas escuras semelhantes a morcegos: as Fúrias. Tive a sensação de que nos aguardavam.
– Talvez seja tarde demais para voltar atrás – disse Grover com tristeza.
– Vai dar tudo certo. – Tentei parecer confiante.
– Talvez devêssemos procurar em alguns dos outros lugares primeiro – sugeriu Grover. – Como o EIísio, por exemplo...
– Venha, menino-bode. – Annabeth agarrou-lhe o braço.
Grover ganiu. Seus tênis criaram asas e as pernas saltaram para a frente, puxando-o para longe de Annabeth. Ele aterrissou de costas na grama.
– Grover – ralhou Annabeth. – Pare de embromar.
– Mas eu não... – Ele ganiu de novo. Os tênis estavam agora batendo as asas como loucos. Levitaram do chão e começaram a arrastá-lo para longe de nós. – Maia! – gritou ele, mas a palavra mágica parecia não fazer mais efeito. – Maia, agora mesmo! Um-nove-zero! Socorro!
Eu me refiz da perplexidade e tentei agarrar a mão de Grover, mas era tarde demais. Ele estava ganhando velocidade, escorregando colina abaixo como um trenó. Corremos atrás dele. Annabeth gritou:
– Desamarre os tênis!
Foi uma ideia esperta, mas acho que isso não é tão fácil quando os seus sapatos o estão arrastando para a frente a toda velocidade. Grover tentou sentar, mas não conseguiu alcançar os cadarços. Continuamos correndo atrás dele, tentando mantê-lo à vista enquanto disparava por entre as pernas dos espíritos que matraqueavam para ele, aborrecidos. Eu tinha certeza de que Grover iria passar direto dos portões do palácio de Hades, mas de repente os tênis desviaram para a direita e o arrastaram na direção oposta.
A ladeira ficou mais íngreme. Grover ganhou velocidade. Annabeth e eu tivemos de correr a toda para acompanhá-lo. As paredes da caverna se estreitaram dos dois lados, e me dei conta de que estávamos entrando em algum tipo de túnel lateral. Não havia mais grama preta nem árvores, apenas pedras sob os pés, e a luz pálida das estalactites acima.
– Grover! – gritei, minha voz reverberando. – Segure em alguma coisa!
– O quê? – gritou ele de volta.
Estava agarrando os pedregulhos, mas não havia nada grande o bastante para reduzir sua velocidade. O túnel ficou mais escuro e frio. Os pelos dos meus braços se arrepiaram. O cheiro ali embaixo me deixava era nauseado. Me fez pensar em coisas que nem devia saber – sangue derramado sobre um antigo altar de pedra, o hálito fétido de um assassino. Então vi o que estava à nossa frente e, de repente, estanquei. O túnel se alargava para uma enorme caverna escura, e no meio havia um abismo do tamanho de um quarteirão da cidade. Grover estava escorregando direto para a borda.
– Venha, Percy! – gritou Annabeth, puxando-me pelo pulso.
– Mas aquilo...
– Eu sei! – gritou ela. – O lugar que você descreveu de seu sonho! Mas Grover vai cair se não o pegarmos.
Ela estava certa, é claro. O apuro de Grover fez com que me mexesse de novo. Ele estava gritando, arranhando o chão, mas os tênis alados continuavam a arrastá-lo em direção ao poço, e não parecia possível chegar até ele a tempo. O que o salvou foram seus cascos. Os tênis voadores sempre ficaram folgados nele, e quando Grover chocou-se com uma grande pedra, seu tênis esquerdo saiu voando e disparou para as trevas, abismo abaixo. O tênis direito continuou a puxá-lo, mas não tão depressa. Grover conseguiu reduzir a velocidade agarrando-se à grande pedra e usando-a como âncora. Estava a três metros da borda do abismo quando nós pegamos e o puxamos de volta ladeira acima. O outro tênis alado se desprendeu, circulou em volta de nós furiosamente e chutou nossas cabeças em protesto antes de voar para dentro do abismo a fim de juntar-se a seu par. Todos desabamos exaustos sobre os pedregulhos de obsidiana. Meus membros pareciam feitos de chumbo. Até minha mochila parecia mais pesada, como se alguém a tivesse enchido de pedras. Grover estava muito arranhado. Suas mãos sangravam. As pupilas dos olhos se transformaram em fendas, no estilo dos bodes como sempre acontecia quando ele estava aterrorizado.
– Eu não sei como... – arquejou ele. – Eu não...
– Espere – falei. – Escute. – Eu tinha ouvido algo. Um sussurro profundo na escuridão. Mais alguns segundos, e Annabeth disse:
– Percy, este lugar...
– Psiu. – Fiquei em pé. O som estava ficando mais alto, uma voz murmurante, malévola, vinda de longe, muito longe abaixo de nós. Vinda do abismo. Grover sentou-se.
– O... o que é esse ruído?
Agora Annabeth também ouvira. Pude ver em seus olhos.
– Tártaro. A entrada para o Tártaro.
Destampei Anaklusmos. A espada de bronze se expandiu, brilhando no escuro, e a voz maligna pareceu vacilar, só por um momento, antes de retomar seu canto. Eu agora quase conseguia distinguir palavras, palavras muito, muito antigas, ainda mais antigas que o grego. Como se...
– Mágica – falei.
– Temos de dar o fora daqui – disse Annabeth.
Juntos, arrastamos Grover para cima dos cascos e começamos a voltar pelo túnel. Minhas pernas não se moviam depressa o bastante. Minha mochila pesava. A voz ficou mais alta e irada atrás de nós, e desandamos a correr. Bem na hora. Uma rajada fria de vento nos aspirou pelas costas, como se o abismo inteiro estivesse inalando. Por um momento aterrorizante eu perdi o controle, e meus pés começaram a escorregar nos pedregulhos. Se estivéssemos mais perto da borda, teríamos sido sugados para dentro. Continuamos fazendo força para a frente e finalmente chegamos ao topo do túnel, onde a caverna se abria para os Campos de Asfódelos. O vento parou. Um lamento de indignação ecoou no fundo. Alguma coisa não estava feliz por termos escapado.
– O que era aquilo? – ofegou Grover quando desabamos na relativa segurança de um bosque de choupos negros – Um dos bichinhos de estimação de Hades?
Annabeth e eu nos entreolhamos. Eu podia ver que ela acalentava uma ideia, provavelmente a mesma que tivera durante a viagem de táxi a Los Angeles, mas estava apavorada demais para dividi-la comigo. Isso já era o bastante para me aterrorizar. Pus a tampa na minha espada, pus a caneta de volta no bolso.
– Vamos andando. – Olhei para Grover. – Consegue andar?
Ele engoliu em seco.
– Sim, com certeza. Nunca gostei muito daqueles tênis mesmo.
Ele tentou parecer valente, mas estava tremendo tanto quanto Annabeth e eu. O que quer que estivesse naquele abismo, não era o bichinho de estimação de ninguém. Era visivelmente antigo e poderoso. Nem mesmo Equidna me dera aquela sensação. Fiquei quase aliviado de dar as costas para aquele túnel e me dirigir para o palácio de Hades. Quase.
As Fúrias rodeavam os baluartes, lá no alto, nas trevas. As muralhas externas da fortaleza brilhavam em negro e os portões de bronze com dois andares de altura estavam escancarados.
De perto, vi que as gravações nos portões eram cenas de morte. Algumas de tempos modernos – uma bomba atômica explodindo sobre uma cidade, uma trincheira cheia de soldados usando máscaras de gás, uma fila de africanos vítimas da fome aguardando com tigelas vazias – mas todas pareciam ter sido gravadas no bronze havia milhares de anos. Fiquei pensando se estava olhando para profecias que se tornaram realidade. Dentro do pátio havia o jardim mais estranho que já vi. Cogumelos multicoloridos, arbustos venenosos e plantas luminosas fantasmagóricas cresciam sem a luz do sol. Gemas preciosas supriam a falta de flores, pilhas de rubis grandes como meu punho, aglomerados de diamantes brutos. Aqui e ali, como convidados de uma festa que foram congelados, havia estátuas de jardim da Medusa – crianças, sátiros e centauros petrificados – todos sorrindo grotescamente. No centro do jardim havia um pomar de romãzeiras, suas flores alaranjadas brilhando como néon no escuro.
– O jardim de Perséfone – disse Annabeth. – Continue andando.
Entendi por que ela quis seguir andando. O cheiro ácido daquelas romãs era quase irresistível. Tive um súbito desejo de comê-las, mas então me lembrei da história de Perséfone. Uma mordida de um alimento do Mundo Inferior e nunca mais poderíamos sair. Puxei Grover para longe, para impedi-lo de colher uma delas, grande e suculenta. Subimos os degraus do palácio, entre colunas negras, passando por um pórtico de mármore negro, para dentro da casa de Hades. O vestíbulo tinha um piso de bronze polido que parecia ferver à luz refletida das tochas. Não havia teto, apenas o teto da caverna muito acima. Acho que eles nunca precisaram se preocupar com chuva aqui embaixo. Todas as portas laterais eram guardadas por um esqueleto com trajes militares. Alguns usavam armaduras gregas, outros, uniformes ingleses de casacas vermelhas, e havia ainda os que vestiam roupas camufladas com bandeiras americanas esfarrapadas nos ombros. Carregavam lanças, mosquetes ou fuzis. Nenhum deles nos incomodou, mas suas órbitas ocas nos seguiram enquanto andávamos pelo vestíbulo em direção ao grande conjunto de portas no extremo oposto.
Dois esqueletos de fuzileiros navais americanos guardavam as portas. Eles sorriram para nós, com lançadores de granadas atravessadas no peito.
– Sabem de uma coisa – murmurou Grover – aposto que Hades não tem problemas para despachar vendedores de porta a porta.
Minha mochila agora pesava uma tonelada. Eu não conseguia imaginar por quê. Quis abri-la, verificar se por acaso havia colhido alguma bola de boliche perdida, mas aquele não era o momento.
– Bem, gente – disse. – Acho que devemos... bater?
Um vento quente soprou pelo corredor e as portas se abriram. Os guardas deram um passo para o lado.
– Acho que isso significa entrez-vous – disse Annabeth. Lá dentro a sala era exatamente como em meu sonho, só que dessa vez o trono de Hades estava ocupado. Era o terceiro deus que eu conhecia, mas o primeiro que realmente me impressionava como deus. Para início de conversa, ele tinha pelo menos três metros de altura, e usava mantos de seda preta e uma coroa de ouro trançado. Sua pele era branca como a de um albino, o cabelo comprido até os ombros era preto-azeviche. Não era corpulento como Ares, mas irradiava força. Reclinava-se em seu trono de ossos humanos fundidos parecendo flexível, elegante e perigoso como uma pantera.
No mesmo instante tive a sensação de que ele deveria dar as ordens. Sabia mais do que eu. Devia ser meu mestre. Então disse a mim mesmo para dar o fora. A aura de Hades estava me afetando, assim como acontecera com a de Ares. O Senhor dos Mortos lembrava retratos que eu tinha visto de Adolf Hitler, ou Napoleão, ou dos líderes terroristas que controlam os homens-bomba. Hades tinha o mesmo olhar intenso, o mesmo tipo de carisma hipnotizador e maligno.
– Você é corajoso de vir até aqui, Filho de Poseidon – disse ele com uma voz untuosa. – Depois do que me fez, você é muito valente, sem dúvida. Ou talvez seja simplesmente muito tolo.
Um entorpecimento se insinuou nas minhas juntas, tentando-me a deitar e tirar uma pequena soneca aos pés de Hades. Queria me enroscar ali e dormir para sempre. Lutei contra a sensação e dei um passo à frente. Sabia o que tinha de dizer.
– Senhor e tio, trago dois pedidos.
Hades ergueu uma sobrancelha. Quando ele chegou mais para a frente em seu trono, rostos sombrios apareceram nas dobras dos seus mantos negros, rostos atormentados, como se o traje fosse feito de almas dos Campos da Punição pegas ao tentar escapar, costuradas umas nas outras. Minha porção transtorno do déficit de atenção se perguntou se o resto das roupas dele era feito do mesmo modo. Que coisas horríveis alguém teria de fazer em vida para merecer ser parte da roupa de baixo de Hades?
– Só dois pedidos? – disse Hades. – Criança arrogante. Como se você já não tivesse recebido o bastante. Fale, então. Acho divertido esperar um pouco para fulminar você.
Engoli em seco. Aquilo estava indo mais ou menos tão bem quanto eu temia. Relanceei para o trono menor, vazio, ao lado do de Hades. Tinha a forma de uma flor negra, decorada em ouro. Desejei que a rainha Perséfone estivesse ali. Lembrei-me de algo nos mitos sobre como ela podia acalmar os humores do marido. Mas era verão. É claro que Perséfone estaria acima no mundo de luz com mãe, a deusa da agricultura, Deméter. Suas visitas, e não a inclinação do planeta, criavam as estações. Annabeth pigarreou. Seu dedo me cutucou nas costas.
– Senhor Hades – disse eu. – Olhe, senhor, não pode haver uma guerra entre os deuses. Isso seria... ruim.
– Realmente ruim – acrescentou Grover, querendo ajudar. – Devolva o raio-mestre de Zeus para mim – disse eu. – Por favor, senhor, deixe-me levá-lo para o Olimpo.
Os olhos de Hades brilharam perigosamente.
– Você se atreve a continuar com essa farsa, depois de tudo o que fez?
Dei uma olhada para os meus amigos atrás de mim. Pareciam tão confusos quanto eu.
– Ahn... tio – falei. – Você fica dizendo "depois de tudo o que você fez". O que foi, exatamente, que eu fiz?
A sala do trono tremeu com tanta força que, provavelmente, o impacto foi sentido lá em cima, em Los Angeles. Fragmentos de rocha caíram do teto da caverna. Portas se abriram violentamente em todas as paredes, e guerreiros esqueléticos marcharam para dentro, centenas deles, de todas as épocas e nações da civilização ocidental. Enfileiraram-se nos quatro cantos da sala, bloqueando as saídas. Hades urrou:
– Você acha que eu quero a guerra, filhote de deus?
Tive vontade de dizer, Bem, esses caras não se parecem muito com ativistas pela paz.Mas achei que poderia ser uma resposta perigosa.
– Você é o Senhor dos Mortos – falei com cautela. – Uma guerra iria expandir seu remo, certo?
– É bem característico dos meus irmãos dizerem uma coisa dessas! Acha que preciso de mais súditos? Não está vendo a grandeza dos Campos de Asfódelos?
– Bem...
– Você tem ideia de quanto meu reino inchou só neste último século, quantas subdivisões tive de criar? – Abri a boca para responder, mas Hades agora estava embalado. – Mais espíritos de segurança – queixou-se. – Problemas de trânsito no pavilhão de julgamentos. Horas extras em dobro para o pessoal. Eu era um deus rico, Percy Jackson. Controlo todos os metais preciosos embaixo da terra. Mas as minhas despesas!
– Caronte quer um aumento de salário – despejei, acabando de me lembrar do fato. Assim que falei, pensei que perdera uma ótima chance de ficar calado.
– Não me fale de Caronte! – gritou Hades. – Ele está impossível desde que descobriu os ternos italianos! Problemas em toda parte, e eu tenho de lidar com todos eles pessoalmente. O tempo de viagem entre o palácio e os portões já é suficiente para me deixar insano! E os mortos continuam chegando. Não, filhote de deus, eu não preciso de ajuda para arranjar súditos! Não pedi essa guerra.
– Mas você pegou o raio-mestre de Zeus.
– Mentiras! – Mais estrondos. Hades ergueu-se do trono, ficando da altura de uma trave de futebol. – Seu pai pode enganar Zeus, menino, mas eu não sou tão estúpido. Enxergo o plano dele.
– O plano dele?
– Você foi o ladrão no solstício de inverno – disse ele. – Seu pai pensou em mantê-lo como seu pequeno segredo. Ele o mandou para a sala do trono no Olimpo. Você pegou o raio-mestre e meu elmo. Se eu não tivesse enviado minha Fúria para descobri-lo na Academia Yancy, Poseidon talvez tivesse conseguido esconder o plano para desencadear uma guerra. Mas agora você foi forçado a aparecer. Será exposto como o ladrão de Poseidon, e eu terei meu elmo de volta!
– Mas... – falou Annabeth. Pude perceber que a cabeça dela estava a um milhão de quilômetros por hora. – Senhor Hades, seu elmo das trevas também desapareceu?
– Não banque a inocente comigo, menina. Você e o sátiro estiveram ajudando este herói, que veio aqui me ameaçar sem dúvida em nome de Poseidon, a me trazer um ultimato. Poseidon acha que posso ser chantageado para apoiá-lo?
– Não! – falei. – Poseidon não... eu não...
– Não falei nada do desaparecimento do elmo – rosnou Hades – porque não tenho ilusões de que alguém no Olimpo me faça justiça, que me dê alguma ajuda. Não posso permitir que vaze a notícia de que minha arma mais poderosa está desaparecida. Portanto procurei por você eu mesmo, e quando ficou claro que você vinha a mim para fazer sua ameaça, não tentei detê-lo.
– Você não tentou nos deter? Mas...
– Devolva meu elmo agora, ou vou interromper a morte – ameaçou Hades. – Esta é a minha contraproposta. Abrirei a terra e mandarei os mortos se despejarem de volta em seu mundo. Transformarei suas terras em um pesadelo. E você, Percy Jackson... o seu esqueleto liderará o meu exército para fora do Hades. Todos os soldados esqueléticos deram um passo à frente, com as armas de prontidão.
A essa altura, eu deveria ter ficado aterrorizado. O estranho foi que eu me senti ofendido. Nada me deixa mais zangado do que ser acusado de algo que não fiz. Já tivera uma porção de experiências com isso.
– Você é tão mau quanto Zeus – disse eu. – Acha que roubei você? E por isso que mandou as Fúrias atrás de mim?
– É claro – disse Hades.
– E os outros monstros? – Hades franziu o lábio.
– Não tive nada a ver com eles. Eu não queria uma morte rápida para você; queria você diante de mim, vivo, para enfrentar todas as torturas dos Campos da Punição. Por que acha que o deixei entrar no meu reino tão facilmente?
– Facilmente?
– Devolva o que me pertence!
– Mas eu não tenho o seu elmo. Vim buscar o raio-mestre.
– Que você já possui! – bradou Hades. – Você veio aqui com ele, pequeno idiota, achando que poderia me ameaçar!
– Não é verdade!
– Então abra a sua mochila.
Um pensamento horrível me assaltou. O peso da minha mochila, como uma bola de boliche... Não podia ser... Tirei a mochila dos ombros e abri o zíper. Dentro havia um cilindro de metal de sessenta centímetros de comprimento, com uma ponta de cada lado, zumbindo de energia.
– Percy – disse Annabeth. – Como...
– Eu... eu não sei. Não entendo.
– Vocês, heróis, são sempre iguais – disse Hades. – Seu orgulho os torna tolos, achando que podem trazer uma arma as sim diante de mim. Eu não pedi o raio de Zeus, mas já que ele está aqui, você o entregará a mim. Tenho certeza de que será um excelente instrumento de barganha. E agora... o meu elmo. Onde está?
Eu estava sem fala. Não tinha elmo nenhum. Não tinha ideia de como o raio-mestre fora parar na minha mochila. Quis pensar que Hades estava armando algum tipo de truque. Hades era o vilão. Mas de repente o mundo virará de lado. Percebi que havia sido usado. Alguém fizera Zeus, Poseidon e Hades quererem a caveira um do outro. O raio-mestre estava na minha mochila, e eu recebera a mochila de...
– Senhor Hades, espere – disse eu. – Isso tudo é um engano.
– Um engano? – rugiu Hades. Os esqueletos apontaram as armas. Lá no alto houve um bater de asas coriáceas, e as três Fúrias voaram para baixo para empoleirar-se nas costas do trono do seu senhor. A que tinha as feições da Sra. Dodds arreganhou um sorriso ávido para mim e estalou o seu chicote. – Não há engano nenhum – disse Hades. – Sei por que você veio, e sei a razão real por que trouxe o raio. Você veio negociar por ela.
Hades soltou uma bola de fogo dourado da palma de sua mão Ela explodiu nos degraus diante de mim, e lá estava a minha mãe congelada em uma chuva de ouro, exatamente como no momento em que o Minotauro começou a apertá-la até a morte. Não pude falar. Estendi a mão para tocá-la, mas a luz era quente como uma fogueira.
– Sim – disse Hades com satisfação. – Eu a tomei. Eu sabia, Percy Jackson, que você por fim viria barganhar comigo. Devolva o meu elmo, e talvez eu a deixe ir. Ela não está morta, você sabe. Ainda não. Mas, se você me desagradar, isso irá mudar.
Pensei nas pérolas no meu bolso. Talvez elas pudessem me safar daquilo. Se ao menos eu conseguisse libertar a minha mãe...
– Ah, as pérolas – disse Hades, e meu sangue gelou. – Sim meu irmão e os seus truquezinhos. Apresente-as, Percy Jackson. Minha mão se moveu contra a vontade e eu apresentei as pérolas. – Apenas três – disse Hades. – Que pena. Você sabe que cada qual protege uma só pessoa. Tente levar a sua mãe, então filhotinho de deus. E qual dos seus amigos você deixará para trás para passar a eternidade comigo? Vá em frente. Escolha. Ou me dê a mochila e aceite as minhas condições.
Olhei para Annabeth e Grover. Suas expressões eram soturnas.
– Fomos enganados – disse-lhes. – Pegos numa armadilha.
– Sim, mas por quê? – perguntou Annabeth. – E a voz no abismo...
– Ainda não sei – disse eu. – Mas pretendo perguntar.
– Decida, menino! – gritou Hades.
– Percy – Grover pôs a mão no meu ombro. – Você não pode lhe entregar o raio.
– Eu sei disso.
– Deixe-me aqui – disse ele. – Use a terceira pérola para sua mãe.
– Não!
– Eu sou um sátiro – disse Grover. – Nós não temos almas como os seres humanos. Ele pode me torturar até a morte, mas não ficará comigo para sempre. Eu reencarnarei em uma flor, ou alguma outra coisa. É o melhor jeito.
– Não. – Annabeth sacou a sua faca de bronze. – Vocês dois continuam. Grover, você tem de proteger Percy. Você tem de conseguir a sua licença de buscador e começar a sua missão por Pan. Tire a mãe dele para fora daqui. Eu lhes darei cobertura. Planejo cair lutando.
– Nem pensar – disse Grover. – Eu vou ficar para trás.
– Pense de novo, menino-bode – disse Annabeth.
– Parem, vocês dois! – Era como se o meu coração estivesse sendo rasgado ao meio. Ambos passaram por tanta coisa comigo. Lembrei-me de Grover bombardeando a medusa no jardim de estátuas, e de Annabeth nos salvando de Cérbero; nós sobrevivemos ao Parque Aquático de Hefesto, ao Arco de St. Louis, ao Cassino Lótus. Passei milhares de quilômetros preocupado porque seria traído por um amigo, mas aqueles amigos jamais fariam isso. Eles não fizeram nada a não ser me salvar, vezes e vezes seguidas, e agora queriam sacrificar suas vidas pela minha mãe.
– Eu sei o que fazer – disse eu. – Segurem isto. Entreguei uma pérola a cada um deles.
Annabeth disse:
– Mas, Percy...
Virei-me e encarei minha mãe. Queria desesperadamente me sacrificar e usar a última pérola para ela, mas sabia o que ela iria dizer. Ela jamais permitiria isso. Eu tinha de levar o raio de volta para o Olimpo e contar a verdade a Zeus. Tinha de impedir a guerra. Ela jamais me perdoaria se eu a salvasse em vez disso. Pensei na profecia feita na Colina Meio-Sangue, que parecia ter sido um milhão de anos atrás. No fim você não conseguirá salvar aquilo que mais importa.
– Desculpe – disse a ela. – Eu voltarei. Vou encontrar um jeito.
A expressão presunçosa na cara de Hades se apagou. Ele disse:
– Filhote de deus...?
– Vou encontrar o seu elmo, tio – disse a ele. – Vou devolvê-lo. Lembre-se do aumento de salário de Caronte.
– Não me desafie...
– E não faria mal brincar com Cérbero de vez em quando. Ele gosta de bolas de borracha vermelhas.
– Percy Jackson, você não vai...
Eu gritei:
– Agora!
Esmagamos as pérolas aos nossos pés. Por um momento apavorante, nada aconteceu.
Hades gritou:
– Destruam-nos!
O exército de esqueletos avançou, espadas desembainhadas fuzis engatilhados no modo totalmente automático. As Fúrias mergulharam, os chicotes explodindo em chamas. Exatamente quando os esqueletos abriram fogo, os fragmentos; de pérola aos meus pés explodiram em luz verde e uma rajada de ar fresco do mar. Eu fui encapsulado em uma esfera branca leitosa que começava a flutuar para fora do chão. Annabeth e Grover estavam bem atrás de mim. Lanças e balas ricochetearam inofensivamente nas bolhas de pérola enquanto flutuávamos para cima. Hades gritou com tamanha raiva que a fortaleza inteira se sacudiu e eu soube que aquela não seria uma noite tranquila em Los Angeles.
– Olhem para cima! – gritou Grover. – Vamos bater!
Sem dúvida, estávamos indo direto para as estalactites, as quais imaginei que iriam estourar as nossas bolhas e nos espetar.
– Como se controla essas coisas? – gritou Annabeth.
– Acho que não se controla! – gritei de volta.
Gritamos quando as bolhas colidiram com o teto e... Escuridão. Será que estávamos mortos?
Não, eu ainda tinha a sensação de velocidade. Estávamos indo para cima, através da rocha sólida, tão facilmente quanto uma bolha de ar na água. Aquele era o poder das pérolas, eu me dei conta – o que pertence ao mar sempre retornará ao mar. Por alguns momentos, não vi nada além das paredes macias da minha esfera, então minha pérola irrompeu no fundo do oceano. As outras duas esferas leitosas, Annabeth e Grover, me acompanharam enquanto disparávamos para cima através da água. E... pimba! Explodimos na superfície, no meio da baía de Santa Monica, jogando um surfista para fora da sua prancha com um indignado "Ei, cara!". Agarrei Grover e o arrastei até uma boia salva-vidas. Peguei Annabeth e a arrastei também. Um tubarão curioso dava voltas em torno de nós, um grande tubarão branco com cerca de três metros e meio de comprimento.
Eu disse:
– Cai fora! O tubarão se virou e fugiu apressado. O surfista gritou alguma coisa sobre cogumelos estragados e se afastou de nós patinhando o mais rápido que podia. De algum modo, eu sabia que horas eram: início da manhã, 21 de junho, o dia do solstício de verão. À distância, Los Angeles estava em chamas, nuvens de fumaça subindo de bairros por toda a cidade. Tinha havido um terremoto sem dúvida, e a culpa era de Hades. Provavelmente estava mandando um exército de mortos atrás de mim naquele instante. Mas, naquele momento, o Mundo Inferior não era o meu maior problema. Eu tinha de chegar até a praia. Tinha de levar o raio de Zeus de volta para o Olimpo. Mais que tudo, eu precisava ter uma conversa séria com o deus que me enganara.
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